5. Please, please, please let me get what I want – The Smiths. Parece meio anacrônico. Parece um homem com um colete e um monóculo numa estação de trem. “Por favor, por favor”?! Mas tenho que reconhecer: há dias que fazem um homem bom se tornar mau, de tanto as coisas não darem certo. Sabem como?... Descobri que estou envelhecendo. De verdade, meu corpo está envelhecendo, e tenho a impressão de que cheguei até aqui sem ter conquistado quase nada do que eu queria aos dezesseis. Normal, eu sei. Normal até demais.
4. Get me away from here, I’m dying – Belle and Sebastian. É quase alegre. Deve servir pra uma tarde ensolarada de domingo, especialmente no inverno. Em um mundo ideal, ter embarcado em um ônibus e estar a caminho de bem longe deve bastar pra uma definição ligeira de felicidade. No domingo de sol, você estará recolhendo roupas sujas pelo chão da casa, tentando dormir um pouco ou assistindo da janela ao vai-e-vem preguiçoso dos vizinhos. Mas pelo menos esta música tem uma levadinha boa... Com sorte você até consegue se esquecer do resto.
3. All I want – Joni Mitchell. Na verdade, tanto faz esta ou outra música da Joni Mitchell. Combina com café e cigarros. Particularmente – e não me perguntem por quê – tenho vontade de pintar um quadro quando ouço esta música. Rios de cores claras fugindo pro alto. I want to make you feel better, I want to make you feel free… Tão doce. Você já se pegou fazendo de conta que foi você quem fez chover só pra não ter que admitir que odeia o fato de estar chovendo? Acho que é mais ou menos assim, dizer que deixa livre alguém que é tudo o que você mais quer, mas que você não alcança nunca.
2. Creep – Radiohead. Vontade de ir embora. Deixar pra trás o paraíso que afinal continua perdido. Mas aqui vou eu pelas ruas vazias da madrugada, recolhendo as lembranças de ter ido mais fundo e não saber muito bem se algum dia eu voltei. Às vezes a gente se distrai por muitas horas tentando encontrar culpados pelo que a gente tem de pior. Ouvindo Creep, ou “verme”, diante de um fantasma refletido na vitrine; do outro lado, uma TV passa desenhos animados. Eu queria ser especial, também. Mas eu não sou.
1. Pale Blue Eyes – Velvet Underground. Eu ainda citaria, da mesma banda, Perfect Day e Heroin. Não sei muito bem por que fiquei nesta. Linger on... Piscinas, lagos subterrâneos, banheiras, poças na calçada: acho que esta música me dissolve devagar em água doce. The fact that you are married only proves you’re my best friend – é uma ironia tão suave que nem dói. Aquilo que está grudado por trás das palavras, aquilo que não sai, aquilo que é parte da química do corpo e alguma força inimiga quer levar pra longe – de repente se desfaz, já não importa mais, passou. Cinco minutos e meio flutuando em notas soltas da guitarra. Não deixe acabar. Só não deixe acabar. E então acaba.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Um pouco mais lento e seria um retrato
Teu corpo ardia sob o sol da tarde. Abandonado. Teus olhos fechados, teus lábios entreabertos, tua respiração quieta e profunda. Doce, doce entre os lilases, delicado corpo sobre a grama, entregue à liberdade adormecida de ser apenas corpo.
O movimento involuntário do teu pé esquerdo. O rio imóvel, quente e perfumado dos teus cabelos negros, a estrela desenhada com caneta cor-de-rosa no teu braço direito; meu dedo indicador percorre as tuas costas, até a nuca, e um vento leve agita as folhas nas copas das árvores. A tarde nos foi dada; nossa paisagem, nua, descansa. Sem música. Sem nem a sombra das palavras.
Teus olhos se abriram.
Já faz um século.
Eu estava inventando um milagre. E eu pensava, no início, que seria preciso te guardar da ação da gravidade, ou ainda anular o peso do teu corpo, ou projetar sob os teus pés toda a energia acumulada da minha raiva, do meu orgulho ou do meu desejo. Outras vezes, eu pensava que talvez bastasse eu te distrair de tudo, ou simplesmente fazer versos. É claro que nunca funcionou. Mas eu juro, por tudo o que há de mais sagrado neste mundo, que um dia eu vou encontrar um jeito de te fazer voar de verdade.
– Me beija? – perguntou uma voz rouca.
Meu bem, eu nem pensava em outra coisa.
O movimento involuntário do teu pé esquerdo. O rio imóvel, quente e perfumado dos teus cabelos negros, a estrela desenhada com caneta cor-de-rosa no teu braço direito; meu dedo indicador percorre as tuas costas, até a nuca, e um vento leve agita as folhas nas copas das árvores. A tarde nos foi dada; nossa paisagem, nua, descansa. Sem música. Sem nem a sombra das palavras.
Teus olhos se abriram.
Já faz um século.
Eu estava inventando um milagre. E eu pensava, no início, que seria preciso te guardar da ação da gravidade, ou ainda anular o peso do teu corpo, ou projetar sob os teus pés toda a energia acumulada da minha raiva, do meu orgulho ou do meu desejo. Outras vezes, eu pensava que talvez bastasse eu te distrair de tudo, ou simplesmente fazer versos. É claro que nunca funcionou. Mas eu juro, por tudo o que há de mais sagrado neste mundo, que um dia eu vou encontrar um jeito de te fazer voar de verdade.
– Me beija? – perguntou uma voz rouca.
Meu bem, eu nem pensava em outra coisa.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Pequeno inventário
Ver a noite passar e ter a sensação de que não há ninguém no mundo. Ver o dia passar e ter feito o melhor que pude, mesmo que pareça pouco. Ter amigos tão completamente diferentes entre si que às vezes me perco, e penso que sou muitos de tanto me parecer a cada um deles. Ter amado loucamente, e ter perdido, e ter amado loucamente, e ter perdido – uma vez mais, e outra. Aprender a cada dia. Ensinar sem perceber. Ser teimoso, ser volúvel, ser ingênuo e mau, sonhar na luta, destruir distraído. Ouvir em silêncio. Confessar a todos. A bagunça em casa, a ordem alfabética dos livros, a gata branca que se chama Pluma por causa de uma música do Secos & Molhados. No vazio da sala, as paredes têm um anjo, trinta e três flores arrastadas pelo vento e um refrão do Oasis cuja tradução é "me apoie, ninguém sabe como vai ser". Algumas rugas. Boa memória, boa até demais. Quinze cadernos. Um violão quebrado. E a alma que não cabe em nada disso.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Como se tornar um escritor compulsivo
A ansiedade é um mar de cores muito vivas no qual eu tenho andado submerso, sempre demasiado opaco e sem conseguir me transformar em tudo quanto eu gostaria. Cada pequeno gesto me parece a última chance de alcançar qualquer felicidade; cada fracasso é um furacão que me devasta; cada hora vazia lança três bilhões de vezes o mesmo grito desde um corpo imóvel: que alguma coisa aconteça, que alguma coisa aconteça, que alguma coisa aconteça. Talvez fosse impossível não estar acontecendo alguma coisa o tempo todo. Talvez fosse impossível que tudo acontecesse ao mesmo tempo. Mas eu estou sufocando diante da janela aberta sobre uma paisagem gasta.
Eu vou pra Bahia, não, eu vou pra onde tem neve, não, eu vou pra um templo no Tibete ou dar a volta ao mundo em uma Harley Davidson.
Você tem um amigo a quem você pode contar absolutamente tudo? Há quanto tempo ninguém vê você chorando? Às seis horas da tarde, eu entro em casa e me apavoro com o grande nada que me separa da hora de dormir. É muita coisa guardada, é um caos de pensamentos e vontades sem espelho, sem nenhuma vazão, sem deixar nenhum vestígio no universo dos fatos. Você tem alguém contando histórias que você não quer ouvir? Você tem canais suficientes na sua TV a cabo?
A ansiedade é sempre um último cigarro. A ansiedade é engolir sem mastigar um prato congelado. A ansiedade é o telefone que não toca pra um convite que você recusaria à espera de outros. A ansiedade é uma merda. E saber disso não resolve nada.
Eu vou pra Bahia, não, eu vou pra onde tem neve, não, eu vou pra um templo no Tibete ou dar a volta ao mundo em uma Harley Davidson.
Você tem um amigo a quem você pode contar absolutamente tudo? Há quanto tempo ninguém vê você chorando? Às seis horas da tarde, eu entro em casa e me apavoro com o grande nada que me separa da hora de dormir. É muita coisa guardada, é um caos de pensamentos e vontades sem espelho, sem nenhuma vazão, sem deixar nenhum vestígio no universo dos fatos. Você tem alguém contando histórias que você não quer ouvir? Você tem canais suficientes na sua TV a cabo?
A ansiedade é sempre um último cigarro. A ansiedade é engolir sem mastigar um prato congelado. A ansiedade é o telefone que não toca pra um convite que você recusaria à espera de outros. A ansiedade é uma merda. E saber disso não resolve nada.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Flui
Alguém em mim quer gritar uma dor muito antiga. Ele vem, coloca a mão pesada no meu peito e diz: (...) Eu já não ouço. A dor ainda dói, mas eu passeio pelas ruas e a cidade me parece muito cheia de um qualquer-coisa alegre, pequenas gotas de luz dançando no ar vazio, algo esquecido no fundo dos olhos de quem às vezes eu ainda me lembro de olhar. Eu nunca acreditei na solidão, pra dizer bem a verdade. Eu só jogava o seu jogo por achar que me faltava companhia. Agora, observando em silêncio o vai-e-vem dos corpos animados por estranhas forças, esse mar de gentes à procura de um descanso que não chega nunca, crianças oprimidas ainda pelo grande mistério do mundo eu penso: (...) Eu já não penso. Meu coração também pulsa. Tudo o que eu sou me basta.
quarta-feira, 31 de março de 2010
Coisas assim
Eu tenho essa vontade de trazer você aqui. No terraço do prédio em frente ao meu, não sei por quê. Brincar na chuva. As nossas brincadeiras, você sabe. Eu tenho essa vontade de guardar você na minha gaveta de meias. Hoje eu quero usar a sua presença porque ela me deixa vivo. Hoje também. E hoje. E hoje, e todos os dias, e eu lavo a sua presença na chuva que é pra nunca ficar sem ela enquanto as minhas roupas estiverem na lavanderia. Eu tenho essa vontade de comer você, assim, com geleia de morango no café da manhã e pimenta vermelha no almoço. Tenho essa vontade, queria que você soubesse de tudo o que se passa no meu coração meio sujo, depois ser perdoado e ter uma tarde tranquila ao seu lado, entre borboletas amarelas e um rio cantando e se perdendo em seu eterno ir adiante. Eu tenho essa vontade louca de me esquecer das coisas burras, envelhecidas e sem nenhuma graça deste mundo. O que nos resta? Vamos provocar nosso desejo às três e meia da tarde sobre o asfalto, quebrar as vitrines com os quatro sapatos de quando nos despirmos, amar um ao outro com tanta intensidade que quando adormecerem nossos corpos nus e entrelaçados parecerão um sol caído no canteiro da praça. "É proibido ter um sol na grama", reclamarão os transeuntes. Então chegará esse anjo com o indicador sobre os lábios.
terça-feira, 16 de março de 2010
Carta ligeira, e com a leve impressão de que é tudo um exagero
Parecia um pesadelo ou qualquer coisa assim. Eu andava por aqueles corredores e escadas, prolongando um vazio e um silêncio que não terminavam nunca. A gente ia mudar o mundo. Eu carregava uma mala com rodinhas, e dentro dela nove ou dez dragões que eu passei a vida inteira conquistando pro caso de haver uma guerra. E eu precisava dos seus unicórnios, daquelas bombas enriquecidas em Urano que só você sabe fazer. Mas eram corredores e escadas que só traziam abandono, e não adiantava gritar, chorar, correr ou desejar que não tivesse faltado luz durante a noite e que o despertador tocasse. Eu estava lá. Sozinho. Simples assim, e não havia nada que pudesse mudar isso.
Nem foi a primeira vez que tive que engolir o meu orgulho. E confessar a mim mesmo que, afinal, se eu fosse completamente honesto, eu abriria ainda a minha mala pra mostrar ao mundo não dragões, mas cataventos de papel meio infantis que nem ao menos sairiam voando. Este é o homem verdadeiro, o maltrapilho que se arrasta entre contas já vencidas e a vaga lembrança do calor humano contra o frio da noite. O homem escondido atrás do homem que se sentou em um degrau e achou até melhor que não pudesse chorar, porque era um lugar iluminado e ele estava exageradamente triste.
Enfim, não quero espalhar uma tristeza tão minha, tão misturada a outras que vieram de ontem, nem quero dar a impressão de atribuir a você a mínima responsabilidade por ela. Eu só queria que você soubesse que hoje eu abri mão de alguma coisa que importava pra mim, muito. Mas que afinal eu não teria crescido se já não soubesse que não resolve nada ficar batendo o pé diante da prateleira de iogurtes. Porque nem sempre a gente pode escolher, ponto final, só isso.
Nem foi a primeira vez que tive que engolir o meu orgulho. E confessar a mim mesmo que, afinal, se eu fosse completamente honesto, eu abriria ainda a minha mala pra mostrar ao mundo não dragões, mas cataventos de papel meio infantis que nem ao menos sairiam voando. Este é o homem verdadeiro, o maltrapilho que se arrasta entre contas já vencidas e a vaga lembrança do calor humano contra o frio da noite. O homem escondido atrás do homem que se sentou em um degrau e achou até melhor que não pudesse chorar, porque era um lugar iluminado e ele estava exageradamente triste.
Enfim, não quero espalhar uma tristeza tão minha, tão misturada a outras que vieram de ontem, nem quero dar a impressão de atribuir a você a mínima responsabilidade por ela. Eu só queria que você soubesse que hoje eu abri mão de alguma coisa que importava pra mim, muito. Mas que afinal eu não teria crescido se já não soubesse que não resolve nada ficar batendo o pé diante da prateleira de iogurtes. Porque nem sempre a gente pode escolher, ponto final, só isso.
domingo, 7 de março de 2010
Um baú para os segredos
Assim se chamava um poema que escrevi há uns dez anos sobre os nomes próprios. A ideia era de que nossos nomes funcionam mais ou menos como um traço fronteiriço, um receptáculo, um limite e uma garantia de nossa individualidade. Voltei a pensar nisso depois de meu último post, que trata de incomunicabilidade e solidão, desdobramentos inevitáveis do fato de sermos indivíduos, ou individuais, e porque ultimamente tem-me parecido pouco desejável essa individualidade que é sinônimo de solidão absoluta. Em sentido inverso, a reflexão sobre o nome ressurgiu como uma possibilidade de conciliar "eu" e "o outro", uma vez que, em última análise, nosso nome serve apenas para que sejamos chamados, ou seja, só tem utilidade na relação "eu-outro". Tudo muito racional, tudo muito teórico, até que encontrei nas atualizações de um amigo no Orkut a frase: "quando alguém te ama, a forma de falar seu nome é diferente"; e aí fui ver que, nas explicações sobre "quem eu sou", esse amigo colocou não só uma explicação sobre o significado de seu nome como algumas considerações bem bacanas sobre as várias formas pelas quais ele é chamado. Publico aqui minha própria versão da brincadeira, como um exemplo, e sugiro a todos os que ainda estiverem em busca de si mesmos e em fuga da solidão absoluta que façam o mesmo como exercício. "Vale uma meia-horinha", como diria meu amigo Bruno.
Roger quer dizer "guerreiro famoso", mais precisamente um "lanceiro". Os Orixás confirmam minha relação com a guerra: sou, como Clara Nunes, filho de Ogum com Iansã. Não é muito óbvio, porque a maior parte das guerras em minha vida acontecem do lado de dentro. Socialmente, prefiro atuar pela "paz e amor".
Meu nome completo é Roger Augusto Marquart Dörl, mas pouca gente sabe disso. Quando estreei no teatro, aos doze anos, encurtei tudo para Roger Dörl (sempre fiz questão do trema) e é assim que hoje sou mais conhecido. No dia-a-dia, claro, sou chamado só pelo nome, Roger, e sempre achei coerente que ele fosse incomum: é assim mesmo que eu me sinto. Não por vaidade... tá, só um pouco. Em família e por alguns amigos sou chamado só de Ró, e a sonoridade disso sempre me transporta interiormente para um lugar confortável. Nunca tive um apelido que pegasse, embora meu pai tenha feito durar bastante o Papa-léguas com que ironizava a minha pouca pressa. Por sorte, meu irmão e os poucos amigos que aderiram usavam mais a abreviação Papa, acho que por preguiça de dizer um nome tão comprido. Outro apelido eventual é o Poeta, que eu gosto bastante porque parece que descreve bem a forma como eu gostaria de ser entendido. Quando eu tinha entre catorze e dezesseis anos, as crianças da minha escola me chamavam de Palhaço por causa de umas peças que eu fazia; e hoje, na mesma escola, tem os engraçadinhos que me chamam de Jesus. Não que eu me importe: eu gosto de palhaços e de me parecer com Jesus, e principalmente eu gosto muito de crianças. Em sala de aula, prefiro ser chamado pelo nome e não de Professor, mas nem todos se sentem à vontade para isso, e então eu não insisto. Na verdade, acho até que em alguns casos o tratamento demonstra um respeito sincero e não condicionado, o que faz toda a diferença. Dá até vontade de agradecer.
Nas ruas, nos bares, nas conversas casuais entre amigos ou desconhecidos, Mano, Velho, Brother e afins serão sempre muito bem vindos.
Roger quer dizer "guerreiro famoso", mais precisamente um "lanceiro". Os Orixás confirmam minha relação com a guerra: sou, como Clara Nunes, filho de Ogum com Iansã. Não é muito óbvio, porque a maior parte das guerras em minha vida acontecem do lado de dentro. Socialmente, prefiro atuar pela "paz e amor".
Meu nome completo é Roger Augusto Marquart Dörl, mas pouca gente sabe disso. Quando estreei no teatro, aos doze anos, encurtei tudo para Roger Dörl (sempre fiz questão do trema) e é assim que hoje sou mais conhecido. No dia-a-dia, claro, sou chamado só pelo nome, Roger, e sempre achei coerente que ele fosse incomum: é assim mesmo que eu me sinto. Não por vaidade... tá, só um pouco. Em família e por alguns amigos sou chamado só de Ró, e a sonoridade disso sempre me transporta interiormente para um lugar confortável. Nunca tive um apelido que pegasse, embora meu pai tenha feito durar bastante o Papa-léguas com que ironizava a minha pouca pressa. Por sorte, meu irmão e os poucos amigos que aderiram usavam mais a abreviação Papa, acho que por preguiça de dizer um nome tão comprido. Outro apelido eventual é o Poeta, que eu gosto bastante porque parece que descreve bem a forma como eu gostaria de ser entendido. Quando eu tinha entre catorze e dezesseis anos, as crianças da minha escola me chamavam de Palhaço por causa de umas peças que eu fazia; e hoje, na mesma escola, tem os engraçadinhos que me chamam de Jesus. Não que eu me importe: eu gosto de palhaços e de me parecer com Jesus, e principalmente eu gosto muito de crianças. Em sala de aula, prefiro ser chamado pelo nome e não de Professor, mas nem todos se sentem à vontade para isso, e então eu não insisto. Na verdade, acho até que em alguns casos o tratamento demonstra um respeito sincero e não condicionado, o que faz toda a diferença. Dá até vontade de agradecer.
Nas ruas, nos bares, nas conversas casuais entre amigos ou desconhecidos, Mano, Velho, Brother e afins serão sempre muito bem vindos.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
O relator
"E mesmo que alguém enxergasse por trás das palavras", ele pensava, "quem algum dia saberia o que é estar aqui dentro?"
Carregando uma história única sob a chuva, às dez e meia da manhã, voltando para casa pela rua que margeia o rio. Pequeno desconforto da roupa molhada, de estar usando sandálias – mas era um dia claro e abafado de verão, e afinal a chuva não estava assim tão forte.
"Por um segundo, só,
eu gostaria de ser outra pessoa e poder me olhar de fora. Livrar-me, soltar-me dessa erupção constante de novos estados de alma; ver-me fixado em uma cara de sono ou de alegria e conseguir entender a mim mesmo como alguém que simplesmente está com sono ou alegre – só isso, fácil assim, mais nada".
Uma fina camada de água escorria pela calçada enquanto ele subia o morro. Ipês floridos, pessoas cinzas sob guarda-chuvas, uma oficina de televisores em que ele nunca havia reparado. Lá embaixo, o rio seguia o seu curso, indiferente, preguiçoso,
"pardo", ele acrescentou.
"Eu vou escrever até os meus dedos sangrarem. Eu vou me dar uma overdose dessa exposição compulsiva".
Suas costas, suas pernas doíam. Homens conversavam animadamente sob uma marquise. Ser outro. Ser falante e sociável. Deixar-se. Ser como o rio que corria.
"Ou nada", ele murmurou.
Ou nada. Ser como o rio que corria sem nunca pensar se era rio ou nada.
Carregando uma história única sob a chuva, às dez e meia da manhã, voltando para casa pela rua que margeia o rio. Pequeno desconforto da roupa molhada, de estar usando sandálias – mas era um dia claro e abafado de verão, e afinal a chuva não estava assim tão forte.
"Por um segundo, só,
eu gostaria de ser outra pessoa e poder me olhar de fora. Livrar-me, soltar-me dessa erupção constante de novos estados de alma; ver-me fixado em uma cara de sono ou de alegria e conseguir entender a mim mesmo como alguém que simplesmente está com sono ou alegre – só isso, fácil assim, mais nada".
Uma fina camada de água escorria pela calçada enquanto ele subia o morro. Ipês floridos, pessoas cinzas sob guarda-chuvas, uma oficina de televisores em que ele nunca havia reparado. Lá embaixo, o rio seguia o seu curso, indiferente, preguiçoso,
"pardo", ele acrescentou.
"Eu vou escrever até os meus dedos sangrarem. Eu vou me dar uma overdose dessa exposição compulsiva".
Suas costas, suas pernas doíam. Homens conversavam animadamente sob uma marquise. Ser outro. Ser falante e sociável. Deixar-se. Ser como o rio que corria.
"Ou nada", ele murmurou.
Ou nada. Ser como o rio que corria sem nunca pensar se era rio ou nada.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
O enredo
Vou tentar não enlouquecer por uma coisa assim. É verdade, faz muito tempo que eu não transformo as coincidências em sinais de um plano divino que eu possa entender e ajudar a colocar em prática: eu as registro, apenas, como importantes variáveis em uma equação cujo resultado eu talvez nunca chegue a conhecer. E, no entanto, não consigo evitar que elas exerçam forte influência sobre algumas decisões de ordem prática. Hoje aconteceu isto, por exemplo, e eu ainda não sei quais serão os desdobramentos do caso, mas a julgar pelo histórico de eventos muito semelhantes envolvendo a mesma pessoa, acredito que eu vá decidir ficar sozinho e desligado do mundo pelas próximas semanas.
É assim que eu tenho estado por culpa de Isadora há oito ou nove meses, de modo que não é nada de extraordinário. Essa mulher me transformou em qualquer coisa como seu escravo: eu largo o que estiver fazendo quando ela me chama, eu faço qualquer coisa que ela peça enquanto, por sua vez, ela mantém a decisão de se casar com Antônio Carlos em outubro deste ano. Nem posso vê-la a qualquer momento – e de uns tempos para cá tenho tido que enfrentar longos períodos de espera, o que me entristece profundamente. É óbvio que Isadora está superando a sua indecisão pré-nupcial, e que eu estou perdendo. Mas estou cada vez mais obcecado por ela. Não sei, não posso, não quero viver com nenhuma outra pessoa. Já estou à beira do ridículo.
Então hoje à noite eu me cansei. Tinha acabado de tirar o telefone do gancho para ligar para ela, depois a imaginei nos braços de Antônio Carlos e não tive mais a menor vontade de discar seu número. Se a sua incapacidade de tomar uma decisão continuasse deixando tudo como estava, eu não ia ficar aqui esperando até que isso chegasse a um “sim” sorridente no altar de outro homem. E eu não ia mendigar umas migalhas do seu tempo. Nem ia me esconder em minha casa, passar outra noite sozinho e afogado em tristeza enquanto a cidade inteira estava na avenida principal vendo os ensaios das escolas de samba. Hoje à noite eu estava livre. Às vésperas do Carnaval, eu nunca mais ia sofrer por causa de Isadora.
Então lá estava eu em uma das arquibancadas. Sozinho, triste – mas na mesma rua que pelo menos outras mil e quinhentas mulheres. E do que mais eu precisava? Eu realmente me sentia livre, neste momento áureo da vida em que já não sou nenhum moleque nem encontrei ainda um único fio de cabelo branco. Olhei em volta, reparei naquele mar de gente e pensei: posso escolher quem eu quiser – o que, embora tivesse as suas complicações, era a mais pura verdade. Posso escolher quem eu quiser – eu quase disse em voz alta, como se descobrisse a pólvora; e depois de novo: posso esco...
Ok, agora alguém me diz quais são as chances de uma coisa assim acontecer. Que justamente aquele pensamento, que justamente aquela palavra se perdesse na visão do rosto de Isadora, sozinha em uma arquibancada do outro lado da avenida.
É assim que eu tenho estado por culpa de Isadora há oito ou nove meses, de modo que não é nada de extraordinário. Essa mulher me transformou em qualquer coisa como seu escravo: eu largo o que estiver fazendo quando ela me chama, eu faço qualquer coisa que ela peça enquanto, por sua vez, ela mantém a decisão de se casar com Antônio Carlos em outubro deste ano. Nem posso vê-la a qualquer momento – e de uns tempos para cá tenho tido que enfrentar longos períodos de espera, o que me entristece profundamente. É óbvio que Isadora está superando a sua indecisão pré-nupcial, e que eu estou perdendo. Mas estou cada vez mais obcecado por ela. Não sei, não posso, não quero viver com nenhuma outra pessoa. Já estou à beira do ridículo.
Então hoje à noite eu me cansei. Tinha acabado de tirar o telefone do gancho para ligar para ela, depois a imaginei nos braços de Antônio Carlos e não tive mais a menor vontade de discar seu número. Se a sua incapacidade de tomar uma decisão continuasse deixando tudo como estava, eu não ia ficar aqui esperando até que isso chegasse a um “sim” sorridente no altar de outro homem. E eu não ia mendigar umas migalhas do seu tempo. Nem ia me esconder em minha casa, passar outra noite sozinho e afogado em tristeza enquanto a cidade inteira estava na avenida principal vendo os ensaios das escolas de samba. Hoje à noite eu estava livre. Às vésperas do Carnaval, eu nunca mais ia sofrer por causa de Isadora.
Então lá estava eu em uma das arquibancadas. Sozinho, triste – mas na mesma rua que pelo menos outras mil e quinhentas mulheres. E do que mais eu precisava? Eu realmente me sentia livre, neste momento áureo da vida em que já não sou nenhum moleque nem encontrei ainda um único fio de cabelo branco. Olhei em volta, reparei naquele mar de gente e pensei: posso escolher quem eu quiser – o que, embora tivesse as suas complicações, era a mais pura verdade. Posso escolher quem eu quiser – eu quase disse em voz alta, como se descobrisse a pólvora; e depois de novo: posso esco...
Ok, agora alguém me diz quais são as chances de uma coisa assim acontecer. Que justamente aquele pensamento, que justamente aquela palavra se perdesse na visão do rosto de Isadora, sozinha em uma arquibancada do outro lado da avenida.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Para uma amiga de infância
Sala de estar na penumbra, móveis envelhecidos, uma poltrona em frente à TV ligada. Vê-se apenas um braço segurando o controle remoto e eventualmente trocando o canal; passam notícias de diversas épocas: a morte da Princesa Diana, a construção de Brasília, Paris em maio de 68, a queda do Muro de Berlim e a do World Trade Center, etc. No meio da sala, no centro de um tapete colorido e circular, um adolescente dorme enrolado como um gato. A luminosidade que atravessa as cortinas indica que lá fora é dia. De repente, sons de panela batendo chegam da cozinha; o braço com o controle remoto se imobiliza.
– ... essa bagunça toda, Pedro – diz uma voz de mulher. Sons de passos: salto alto sobre um chão de madeira. A TV exibe um programa muito alegre do Chacrinha. – ... que você seja tão egoísta a este ponto, Pedro; mas pra mim chega, eu não fico nesta casa nem mais um minuto. – Mudança de canal: trechos de um filme qualquer do Kurosawa. Nova mudança: um importante jogo do campeonato irlandês de futebol. O homem pousa o controle remoto sobre o braço da poltrona. – ... não vai ter sobrado um único motivo de alegria nessa tua vidinha estúpida!
Escuridão. Vazio.
Locução de rádio em uma voz monótona, grave e arrastada: "um bom momento para investir na extração de petróleo, na indústria alimentícia e nas corridas de cavalo. Em um ano, o seu dinhero será no mínimo triplicado; em dez anos, você será citado como um exemplo de empreendedorismo pelos maiores especialistas da revista Forbes; em quinhentos anos"...
Jardim ensolarado. Flores. Pessoas passeando.
Estou acomodado em um banco. Aos meus pés, enrolado como um gato, o adolescente dorme. Uma moça se aproxima com um saco de pipocas. Senta-se ao meu lado, come em silêncio. De repente, ri e aponta para três meninos que se enrolam com a cauda de uma pipa. Olha para mim, oferece a pipoca. Eu recuso. Obrigado.
– Se você soubesse a falta que você me fez – eu digo. Ela come em silêncio, observando a paisagem. – A falta que você me fez, eu digo. – Estou cansado disso. Estou virando um eco de mim mesmo. Nada se altera. – Sem você, existe alguma coisa neste mundo que possa me deixar seguro?
A moça desaparece. O sol desaparece; não há ninguém mais no jardim, exceto eu e o gato enrolado em minhas pernas. Sons de trovão. Chuva forte. Quero gritar que eu preciso de ajuda, que eu não sei o que fazer comigo, que eu vou enlouquecer que eu vou morrer que eu vou chorar no meio do supermercado, que eu estou me dissolvendo na paisagem, que nada disso tem importância alguma, que eu já nem sei por que eu ainda me lamento, que eu estou bem, que é só uma chuva e que já está passando, que a vida é bela, que a vida é doce, que...
Um universo branco. O rosto de um adolescente: olhos bem abertos, expressão de malícia. O adolescente abre a boca. De dentro dela, um pouco empoeirada, escapa uma pequena borboleta, meio às tontas, com asas coloridas.
– ... essa bagunça toda, Pedro – diz uma voz de mulher. Sons de passos: salto alto sobre um chão de madeira. A TV exibe um programa muito alegre do Chacrinha. – ... que você seja tão egoísta a este ponto, Pedro; mas pra mim chega, eu não fico nesta casa nem mais um minuto. – Mudança de canal: trechos de um filme qualquer do Kurosawa. Nova mudança: um importante jogo do campeonato irlandês de futebol. O homem pousa o controle remoto sobre o braço da poltrona. – ... não vai ter sobrado um único motivo de alegria nessa tua vidinha estúpida!
Escuridão. Vazio.
Locução de rádio em uma voz monótona, grave e arrastada: "um bom momento para investir na extração de petróleo, na indústria alimentícia e nas corridas de cavalo. Em um ano, o seu dinhero será no mínimo triplicado; em dez anos, você será citado como um exemplo de empreendedorismo pelos maiores especialistas da revista Forbes; em quinhentos anos"...
Jardim ensolarado. Flores. Pessoas passeando.
Estou acomodado em um banco. Aos meus pés, enrolado como um gato, o adolescente dorme. Uma moça se aproxima com um saco de pipocas. Senta-se ao meu lado, come em silêncio. De repente, ri e aponta para três meninos que se enrolam com a cauda de uma pipa. Olha para mim, oferece a pipoca. Eu recuso. Obrigado.
– Se você soubesse a falta que você me fez – eu digo. Ela come em silêncio, observando a paisagem. – A falta que você me fez, eu digo. – Estou cansado disso. Estou virando um eco de mim mesmo. Nada se altera. – Sem você, existe alguma coisa neste mundo que possa me deixar seguro?
A moça desaparece. O sol desaparece; não há ninguém mais no jardim, exceto eu e o gato enrolado em minhas pernas. Sons de trovão. Chuva forte. Quero gritar que eu preciso de ajuda, que eu não sei o que fazer comigo, que eu vou enlouquecer que eu vou morrer que eu vou chorar no meio do supermercado, que eu estou me dissolvendo na paisagem, que nada disso tem importância alguma, que eu já nem sei por que eu ainda me lamento, que eu estou bem, que é só uma chuva e que já está passando, que a vida é bela, que a vida é doce, que...
Um universo branco. O rosto de um adolescente: olhos bem abertos, expressão de malícia. O adolescente abre a boca. De dentro dela, um pouco empoeirada, escapa uma pequena borboleta, meio às tontas, com asas coloridas.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Religare
O corpo de Martina era o meu santuário. Quase não fazíamos amor: rezávamos. Nos primeiros cinco meses, em um apartamento na Santo Agostinho, aprendemos um com o outro os nossos cânticos e preces; depois saímos ampliar a nossa fé pela cidade. Nos sebos, disfarçados em um canto, reescrevemos a Bíblia e o Corão; na Reitoria, nas salas que encontrávamos desertas, desvendamos os segredos da Cabala e outras tradições esotéricas; nas praças, à noite, aprofundamo-nos em várias mitologias de tradição oral; nas escolas – sim, algumas vezes conseguimos invadir algumas escolas, e gostávamos especialmente das salas forradas por quebra-cabeças de EVA – travamos contato novamente com os cultos primitivos; e por fim nos prédios, nos condomínios fechados, no Memorial da Cidade, nos shoppings, nos correios, na prefeitura, em todas as obras em construção, públicas ou privadas, fomos pagãos liberais, burgueses, felizes e completamente alienados.
(Às vezes, cansados de nossa santidade heterodoxa, buscávamos o interior silencioso de alguma igreja onde, aliviados, pecávamos.)
(Às vezes, cansados de nossa santidade heterodoxa, buscávamos o interior silencioso de alguma igreja onde, aliviados, pecávamos.)
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Dezembro
As ruas recebem os meus passos lentos e pesados; ofuscam meu olhar as luzes de Natal – e mesmo que algum rosto fosse conhecido, hoje eu não saberia dizer nada a meu respeito sem usar um piano. A noite é quente, a vida é agora e eu me sinto um personagem sem nenhum encanto dentro do meu terno, nesse meu ar taciturno, procurando nas vitrines por um objeto qualquer que possa confessar o meu amor em meu lugar, de preferência sem que eu precise levá-lo. Às vezes eu me sinto um órfão. Às vezes eu sei que eu nasci no século errado. Um poço de incapacidades para coisas banais, uma lente escura sobre um mundo incompreensível e uma paixão inútil por rosas, vestidos rendados, bonecas de porcelana ou anjinhos de gesso em que você veria a minha alma sem nunca se sentir amada. São sempre tristes nossos momentos de entrega. Como os de um amor impossível; como os de um amor que estivesse sempre às vésperas de ser passado. A minha solidão é interminável. Prisão de um corpo e de um tempo – a escuridão da noite maltratada por enfeites burros de Natal, a extinção em massa dos engraxates, dezenas de pessoas na euforia de comprar presentes ao mesmo tempo em que lamentam as férias das crianças, as minhas mãos que se levantam no ar e procuram dissolver a realidade pelos sons imaginários de um piano invisível, eu sem você nas ruas da cidade, você e a cidade sem saber por onde eu ando, por que eu ainda ando – quais são as chances de um raio divino atravessar o universo e se lembrar de transformar nosso planeta em um fluir constante da mais pura música?
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Fortaleza em meio à selva
(Memórias)
Subir no muro do parquinho em busca de araçás. No fim da rua, em um condomínio fechado. Casinhas brancas de dois andares: a nossa era a primeira à esquerda de quem entrava. Encontrar um passarinho morto sob a escadaria. Não achar nenhuma graça em aulas de judô – aos dezessete, voltei àquela casa que era o meu jardim da infância e me pareceu que haviam reduzido muito o espaço. Ganhar uma bicicleta no palito do sorvete. Um fim de tarde, atravessando o viaduto ao lado da rodoviária, ouvir de meu pai uma história qualquer sobre um acidente de carro. Luzes de freio. Luzes. Por que eu me lembro dessas luzes com tamanha nitidez?
Meu pai dava plantões no Hospital Psiquiátrico. Eu não tinha mais que cinco anos: penumbra da memória, noites de poeira nos cenários só meus da capital paranaense. Um quarto pequeno, lâmpadas não muito fortes. Eu fui com ele, talvez mais de uma vez, passar a noite naquela casa de pessoas doentes – não loucos, eu não sabia ainda o que era isso; e meu pai era muito generoso por cuidar tão bem daquelas gentes. E ainda assim encontrar um tempo para estar comigo naquele quarto, jogando futebol de botão, assistindo a um Globo Repórter sobre os meios de sobreviver na selva. Um prato de lesmas, é tudo de que me lembro naquele programa. Por ser inédito, e não desagradável: um mundo novo, apenas, de uma estranheza colorida e fascinante.
Mas acho que dormi bem antes do final da reportagem.
Subir no muro do parquinho em busca de araçás. No fim da rua, em um condomínio fechado. Casinhas brancas de dois andares: a nossa era a primeira à esquerda de quem entrava. Encontrar um passarinho morto sob a escadaria. Não achar nenhuma graça em aulas de judô – aos dezessete, voltei àquela casa que era o meu jardim da infância e me pareceu que haviam reduzido muito o espaço. Ganhar uma bicicleta no palito do sorvete. Um fim de tarde, atravessando o viaduto ao lado da rodoviária, ouvir de meu pai uma história qualquer sobre um acidente de carro. Luzes de freio. Luzes. Por que eu me lembro dessas luzes com tamanha nitidez?
Meu pai dava plantões no Hospital Psiquiátrico. Eu não tinha mais que cinco anos: penumbra da memória, noites de poeira nos cenários só meus da capital paranaense. Um quarto pequeno, lâmpadas não muito fortes. Eu fui com ele, talvez mais de uma vez, passar a noite naquela casa de pessoas doentes – não loucos, eu não sabia ainda o que era isso; e meu pai era muito generoso por cuidar tão bem daquelas gentes. E ainda assim encontrar um tempo para estar comigo naquele quarto, jogando futebol de botão, assistindo a um Globo Repórter sobre os meios de sobreviver na selva. Um prato de lesmas, é tudo de que me lembro naquele programa. Por ser inédito, e não desagradável: um mundo novo, apenas, de uma estranheza colorida e fascinante.
Mas acho que dormi bem antes do final da reportagem.
domingo, 22 de novembro de 2009
A dor que deveras sente
Como se não fosse sempre sobre uma realidade pessoal, eu escrevia um conto utilizando a estrutura descrita pelo professor e baseado nas ideias de Baudrillard, com delicadas doses de naturalismo e citações de Catulo. Como se não fosse sempre para a menina sentada à minha frente; mas eu gostava mesmo de ouvir aquelas teorias sobre o foco narrativo, e parecia-me que faltavam apenas algumas aulas até que eu me tornasse um novo Proust ou Dostoiévski. O professor interrompeu a explicação para perguntar se alguém sentia cheiro de queimado. Mas não lhe dei atenção, porque eu estava distraído com as pontas verdes do cabelo de Yanna Karolina, sentada ao meu lado e, por sua vez, perdida na lembrança de uma tarde de verão em Londres no ano de mil novecentos e oitenta e sete. Acho que a Universidade pegou fogo. E eu não consegui terminar o meu conto – o que afinal foi o menor dos males. Eu lamentava muito mais o fato de que, dois andares abaixo, outro escritor acima da média estaria se sentindo um Saramago injustiçado enquanto suas obras completas e inéditas ardiam no fogo eterno das universidades federais.
Aí resolvi escrever esta historinha, só porque já estávamos mortos, mesmo, e eu queria dizer a ele que no fundo eu continuava achando tudo muito divertido. Ou só morreram os "eus-líricos" naquele incêndio? Ou a poesia não mereceria nunca revelar na prática a sua alma de combustão espontânea?
Aí resolvi escrever esta historinha, só porque já estávamos mortos, mesmo, e eu queria dizer a ele que no fundo eu continuava achando tudo muito divertido. Ou só morreram os "eus-líricos" naquele incêndio? Ou a poesia não mereceria nunca revelar na prática a sua alma de combustão espontânea?
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
O caminho
Eu ia recolhendo, aqui e ali, palavras e gestos que me respondessem a pergunta que eu calava. E pensava que, por precaução, seria preciso ainda calcular a intensidade e a pureza de sua entrega, como se só eu soubesse; como se o amor não fosse amor se diferente do que eu dava, e a minha medida fosse a única medida, e os meus gestos fossem os mais certos. Mas no cenário que eu criei, era impossível que você não reparasse: eu nunca tive muito mais que medo e solidão para lhe oferecer em troca. Esse era o meu rosto, por trás do último disfarce. O medo, e o meu vazio de não ter sido nunca verdadeiramente eu. Só um autoabandono. Quando você surgiu, há muito tempo, parecia afinal que alguma coisa em minha vida se justificava. Que se encaixavam as peças, e que o mundo voltava a girar com uma alegria suave, como lhe era próprio, como deveria ter sido desde o início. Por causa dos seus gestos e palavras sempre doces – que eu passei a perseguir como um desesperado – eu soube enfim que algum caminho era possível para chegar à paz interior, e que talvez, no caminho, o que eu chamava de vazio mostrasse a sua verdadeira natureza de uma luz eterna, acolhedora, viva – apenas invisível para os meus olhos de antes. E é assim mesmo. Mas foi um salto no escuro; um salto que eu me demorei demais para dar. Eu tinha medo da mais vaga possibilidade de você não me querer como eu era. E eu aprendi a roubar o seu carinho. Mas só mostrei de mim a parte que jamais o mereceu – até que você notasse, e me deixasse finalmente entregue ao "eu" que eu tanto demorei para admitir a mim mesmo.
sábado, 31 de outubro de 2009
Terras da noite. Constelação dispersa, mar revolto.
Eu estava brigando com as seguintes palavras: foto, beijo, boca, joelho, dança, roupa, brinco, bola de chiclete.
E eu tinha um filho. Ele bagunçou um pouco as coisas, me fez chorar na primeira vez em que o deixei na escola. Foi mesmo assim. É bem verdade que eu morro de inveja das crianças, mas não é só delas, não. É de tudo aquilo que eu não posso ser. De tudo aquilo que eu só posso contemplar enquanto os outros são.
Mas assombrado pela teia de uns cabelos negros... sem conseguir dizer que ainda estou em mim. Até que o tempo passe e eu não precise fazer nada. Até que eu aprenda a deixar cair o meu castelo. Você brincou? Orou? Caiu? Você chegou em casa com o joelho sujo. Você chegou em casa com uma folha no cabelo.
Cabelos negros... é do ar da noite, não? Ao vento, um cavalo preto, em um lugar onde me vi perdido e de onde você me tirou. No ano de mil seiscentos e cinquenta e dois: olhos azuis, bosque, gravetos, e você me lembrou o meu filho e eu te levei para casa em minha carruagem suja. O tempo tem poeira, não? É um candelabro debaixo de um lençol, é um jogo de porcelana que uma avó deixou. Depois eu quase fui feliz em outra foto: Bosque do Papa, mil novecentos e oitenta e seis. Abraço. Família. Bolas de chiclete e futebol.
Onde eu parei?
Me lembro de você sentada no canto de um bar, olhando para mim. E os teus olhos brilhavam, e o teu cabelo era comprido e muito preto. Você era bonita. E a luz era azulada, e o bar era de blues.
Só muito mais tarde o azul de espera da televisão, e a voz arrastada do Tim Maia cantando "eu amo você... menina..."
Mas era mais verdade o João e Maria do Francisco.
Lembranças de uma flauta flutuante, e de você anotando em meu caderno este diálogo que é bom de ouvir:
– Faz um desenho?
– De quê?
– De uma laranja.
– Laranja?!
– ...
– ...
– Não, pode ser azul.
– Rá!
– Foi boa, né?
– Foi.
(...)
Eu vou gravar a fogo o teu nome em meu ouro.
Mas hoje... não sei. Havia uma pontada de tristeza em tua voz?
Envelhecer é ver as coisas se alargarem por dentro, e nada mais tem um só rosto, e tudo é sinuoso e sem fim, e eu já não sei se faz sentido eu fazer uma poesia tão limpa.
Seremos felizes?
Somos.
Eu vou transpor esse abismo de intrigas e palavras entre nós. Então quem sabe alguma coisa ande. Então quem sabe vibre em liberdade a perfeição do teu nome, do amor e da pele, pássaro e maçã.
São peças que se encaixam facilmente. E embora o seu desenho seja turvo, as minhas mãos lhe darão cores e luzes, e sopros de vida e de verdade.
Apenas... esteja lá.
Para que afinal saibamos se naufragar é preciso.
E eu tinha um filho. Ele bagunçou um pouco as coisas, me fez chorar na primeira vez em que o deixei na escola. Foi mesmo assim. É bem verdade que eu morro de inveja das crianças, mas não é só delas, não. É de tudo aquilo que eu não posso ser. De tudo aquilo que eu só posso contemplar enquanto os outros são.
Mas assombrado pela teia de uns cabelos negros... sem conseguir dizer que ainda estou em mim. Até que o tempo passe e eu não precise fazer nada. Até que eu aprenda a deixar cair o meu castelo. Você brincou? Orou? Caiu? Você chegou em casa com o joelho sujo. Você chegou em casa com uma folha no cabelo.
Cabelos negros... é do ar da noite, não? Ao vento, um cavalo preto, em um lugar onde me vi perdido e de onde você me tirou. No ano de mil seiscentos e cinquenta e dois: olhos azuis, bosque, gravetos, e você me lembrou o meu filho e eu te levei para casa em minha carruagem suja. O tempo tem poeira, não? É um candelabro debaixo de um lençol, é um jogo de porcelana que uma avó deixou. Depois eu quase fui feliz em outra foto: Bosque do Papa, mil novecentos e oitenta e seis. Abraço. Família. Bolas de chiclete e futebol.
Onde eu parei?
Me lembro de você sentada no canto de um bar, olhando para mim. E os teus olhos brilhavam, e o teu cabelo era comprido e muito preto. Você era bonita. E a luz era azulada, e o bar era de blues.
Só muito mais tarde o azul de espera da televisão, e a voz arrastada do Tim Maia cantando "eu amo você... menina..."
Mas era mais verdade o João e Maria do Francisco.
Lembranças de uma flauta flutuante, e de você anotando em meu caderno este diálogo que é bom de ouvir:
– Faz um desenho?
– De quê?
– De uma laranja.
– Laranja?!
– ...
– ...
– Não, pode ser azul.
– Rá!
– Foi boa, né?
– Foi.
(...)
Eu vou gravar a fogo o teu nome em meu ouro.
Mas hoje... não sei. Havia uma pontada de tristeza em tua voz?
Envelhecer é ver as coisas se alargarem por dentro, e nada mais tem um só rosto, e tudo é sinuoso e sem fim, e eu já não sei se faz sentido eu fazer uma poesia tão limpa.
Seremos felizes?
Somos.
Eu vou transpor esse abismo de intrigas e palavras entre nós. Então quem sabe alguma coisa ande. Então quem sabe vibre em liberdade a perfeição do teu nome, do amor e da pele, pássaro e maçã.
São peças que se encaixam facilmente. E embora o seu desenho seja turvo, as minhas mãos lhe darão cores e luzes, e sopros de vida e de verdade.
Apenas... esteja lá.
Para que afinal saibamos se naufragar é preciso.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Nascer
As ideias sobre os objetos, os substantivos concretos estavam começando a me engolir. O arame farpado, os cadafalsos, os vidros de perfume, os formulários, os óculos para ver em 3D. Nada disso era matéria, mas puro pensamento sobre ela – palavras, estruturas abstratas. Diante dos meus olhos, só uma neblina muito densa. Haveria uma maneira – sim, era preciso que houvesse – haveria uma forma de entender a neblina apenas pelo tato, sem nem uma letra, nada, somente a sensação absoluta? Haveria um jeito de estar no mundo, e perceber as coisas, e ter algum conhecimento construído sem os símbolos – não mais que o tempo-agora do meu corpo? Ser algo assim como uma árvore móvel? Como um cordeiro? Abandonar-me sem receio à realidade interminavelmente silenciosa do Universo?
domingo, 4 de outubro de 2009
Festejo
Um dia você está lá, quieto no seu canto, pensando na chuva ou fazendo uma poesia parnasiana, e sem que você perceba o tempo vai tramando coisas reais e grandiosas para a sua vida. Você reúne bons amigos, desses que eventualmente aparecem, e numa noite qualquer de conversa furada vocês imaginam, sei lá, um festival de teatro que reúna grupos de toda a região e incentive a produção nas escolas, com várias oficinas simultâneas e espaços para discussões e trocas de experiências, palestras, grupos convidados, estéticas variadas, artistas amadores e profissionais num mesmo espaço e respirando teatro ao longo de toda uma semana.
Aí vem o silêncio. Você e seus amigos se entreolham, respiram fundo. "Isso não ia ser fácil", alguém diz. Novo silêncio. Novos olhares. Até que alguém bate na mesa e fala decidido: "Então é melhor a gente começar agora".
Acho que foi a Clarice Lispector que eu li uma vez dizendo que quando você quer chegar a um ponto é preciso trilhar caminhos muito diversos, inclusive no sentido oposto ao do ponto em que você quer chegar. E quando você luta para realizar um sonho, é impossível se manter à distância de tudo o que a realidade traz em si de pesadelo. A burocracia burra e a falta de dinheiro para um evento dessa natureza são quase irrelevantes, para mim, diante de questões humanas como ceticismo e arrogância, má vontade, oportunismo, estupidez, mesquinharia, etc, etc, etc. É como atravessar o inferno por uma fé meio vaga de que o paraíso ainda esteja à espera. É quase ser engolido pela máquina enquanto você se esquece do que queria quando começou a construí-la.
Mas quando tudo acontece, afinal, você descobre um pouco espantado que a realidade já não é mais tão diferente do sonho que você sonhou um dia...
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Um lugar onde ficar para sempre
Senti pequenas pontadas em toda a mão quando toquei a laranja. Nas ruínas de São João Batista, um pouco antes, eu havia provado o fruto de um cacto chamado tuna, comestível segundo a plaquinha ao lado – mas a plaquinha não dizia nada sobre não usar as mãos para tirar os espinhos. Dessa vez, pensei, estaria seguro; mas quando tirei a laranja do galho, ouvi uma voz vinda de não sei onde:
– Quem disse que você podia?
Uns doze passos adiante, um pouco escondido pelas laranjeiras, um índio adolescente, mais ou menos de minha idade, olhava para mim com a cabeça erguida em tom de desafio.
– Foi um espírito da terra – eu disse devagar. – Você não ouviu?
O índio deu uma sonora gargalhada e caminhou em minha direção. Estávamos no sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo, o mais bem conservado da região das Missões, numa manhã calma e ensolarada de sábado. O menino se chamava André e estava acompanhado por sua irmã mais nova, Rute, que de início preferiu ficar à distância me observando. Contei a eles que já tinha estado ali na tarde anterior, mas que naquela manhã, com tempo livre e o pouco de dinheiro que meus pais me deram, tinha resolvido voltar e aproveitar a boa energia do sítio para escrever poemas. E ficamos assim durante algumas horas, André contando histórias do lugar e de Sepé Tiaraju, eu falando de São Paulo e das comodidades dos shoppings, Rute folheando em silêncio o meu caderno de poemas.
– Você precisa ver este lugar à noite – disse André a certa altura. Rute ergueu os olhos para o céu e, com uma voz muito baixa, acrescentou:
– Hoje à noite vai estar bonito.
André explicou que eles sabiam de um jeito de entrar sem serem vistos, e sugeriu que eu fosse me encontrar com eles perto dali um pouco antes da meia-noite. Aceitei de imediato. Sabia que todos estariam dormindo, porque viajaríamos bem cedo na manhã seguinte, e assim eu não teria dificuldade em despistar meus pais. Quando me despedi, confirmando que os encontraria no local indicado, mal reparei nos olhos tristes de Rute ao me beijar no rosto.
Passei a tarde com meus pais em Santo Ângelo, sem mais ver muita graça no ambiente urbano e desejando ardentemente que a noite chegasse logo. Sentado em um banco da praça, enquanto meus pais compravam ponchos que nunca teríamos coragem de usar em São Paulo, escrevi um longo poema sobre um lugar iluminado de sonho e memória, um lugar onde ficar para sempre: o pequeno paraíso em que povos de culturas diferentes ensaiaram, havia tanto tempo, uma convivência harmoniosa que nunca tinha chegado a se concretizar de fato.
À noite, na hora marcada, esperei por André e Rute com aquela sensação irrecuperável de aventura adolescente. Fazia frio, e eu estava cansado de um dia muito longo, mas tinha certeza de que poderia passar a noite ali sem o menor vestígio de sono. Um pouco depois da meia-noite, com um poncho cor-de-rosa combinando com o gorro, Rute dobrou a esquina e caminhou sozinha em minha direção, sem olhar para mim até que estivesse a menos de três passos, quando informou, com a mesma voz baixa que eu ouvira naquela manhã:
– Meu irmão não vem.
Por um segundo, achei que a aventura da noite estava cancelada. Mas depois, sem dizer mais nada, com uma segurança que até então eu nem imaginava que veria nela, Rute me pegou pela mão e me conduziu direto para o interior do sítio. Levou-me até um ponto relativamente protegido pelas árvores onde, segundo ela, seria impossível sermos surpreendidos pelo vigia, e sugeriu que nos deitássemos usando nossos ponchos como cobertores. Eu era guiado sem resistência, um pouco surpreso, mas ao mesmo tempo estranhamente à vontade. Quando rompi o silêncio e, já deitado, comecei a conversar sobre as constelações que eu conhecia pelo nome, apesar de nunca tê-las visto no céu de São Paulo, parecia que estivera ali desde sempre, ao lado de Rute, sob aquele céu absurdamente amplo e branco de estrelas.
– E não é mesmo um lugar onde ficar para sempre? – perguntou Rute.
Olhei para ela um pouco confuso. Ela sabia do que estava falando, embora o poema não estivesse ainda em meu caderno quando ela o pegou de manhã. Olhava para mim com os mesmos olhos tristes de quando nos despedimos, mas sem hesitar, sem desviar-se dos meus nem por um segundo. E então, movido por uma força que não vinha de mim, mas dos séculos, passei o braço sobre sua cintura e a puxei para mais perto.
Foi minha primeira noite de amor, e estou certo de que foi também a dela. Nervosos e sem jeito, ríamos como crianças; e ela reclamava que as minha mãos estavam frias, e eu reclamava que as minhas mãos doíam com os espinhos da tuna – mas nos beijávamos continuamente, e ríamos de novo, e renovávamos o amor e a eternidade sob o calor dos nossos ponchos.
– Quem disse que você podia?
Uns doze passos adiante, um pouco escondido pelas laranjeiras, um índio adolescente, mais ou menos de minha idade, olhava para mim com a cabeça erguida em tom de desafio.
– Foi um espírito da terra – eu disse devagar. – Você não ouviu?
O índio deu uma sonora gargalhada e caminhou em minha direção. Estávamos no sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo, o mais bem conservado da região das Missões, numa manhã calma e ensolarada de sábado. O menino se chamava André e estava acompanhado por sua irmã mais nova, Rute, que de início preferiu ficar à distância me observando. Contei a eles que já tinha estado ali na tarde anterior, mas que naquela manhã, com tempo livre e o pouco de dinheiro que meus pais me deram, tinha resolvido voltar e aproveitar a boa energia do sítio para escrever poemas. E ficamos assim durante algumas horas, André contando histórias do lugar e de Sepé Tiaraju, eu falando de São Paulo e das comodidades dos shoppings, Rute folheando em silêncio o meu caderno de poemas.
– Você precisa ver este lugar à noite – disse André a certa altura. Rute ergueu os olhos para o céu e, com uma voz muito baixa, acrescentou:
– Hoje à noite vai estar bonito.
André explicou que eles sabiam de um jeito de entrar sem serem vistos, e sugeriu que eu fosse me encontrar com eles perto dali um pouco antes da meia-noite. Aceitei de imediato. Sabia que todos estariam dormindo, porque viajaríamos bem cedo na manhã seguinte, e assim eu não teria dificuldade em despistar meus pais. Quando me despedi, confirmando que os encontraria no local indicado, mal reparei nos olhos tristes de Rute ao me beijar no rosto.
Passei a tarde com meus pais em Santo Ângelo, sem mais ver muita graça no ambiente urbano e desejando ardentemente que a noite chegasse logo. Sentado em um banco da praça, enquanto meus pais compravam ponchos que nunca teríamos coragem de usar em São Paulo, escrevi um longo poema sobre um lugar iluminado de sonho e memória, um lugar onde ficar para sempre: o pequeno paraíso em que povos de culturas diferentes ensaiaram, havia tanto tempo, uma convivência harmoniosa que nunca tinha chegado a se concretizar de fato.
À noite, na hora marcada, esperei por André e Rute com aquela sensação irrecuperável de aventura adolescente. Fazia frio, e eu estava cansado de um dia muito longo, mas tinha certeza de que poderia passar a noite ali sem o menor vestígio de sono. Um pouco depois da meia-noite, com um poncho cor-de-rosa combinando com o gorro, Rute dobrou a esquina e caminhou sozinha em minha direção, sem olhar para mim até que estivesse a menos de três passos, quando informou, com a mesma voz baixa que eu ouvira naquela manhã:
– Meu irmão não vem.
Por um segundo, achei que a aventura da noite estava cancelada. Mas depois, sem dizer mais nada, com uma segurança que até então eu nem imaginava que veria nela, Rute me pegou pela mão e me conduziu direto para o interior do sítio. Levou-me até um ponto relativamente protegido pelas árvores onde, segundo ela, seria impossível sermos surpreendidos pelo vigia, e sugeriu que nos deitássemos usando nossos ponchos como cobertores. Eu era guiado sem resistência, um pouco surpreso, mas ao mesmo tempo estranhamente à vontade. Quando rompi o silêncio e, já deitado, comecei a conversar sobre as constelações que eu conhecia pelo nome, apesar de nunca tê-las visto no céu de São Paulo, parecia que estivera ali desde sempre, ao lado de Rute, sob aquele céu absurdamente amplo e branco de estrelas.
– E não é mesmo um lugar onde ficar para sempre? – perguntou Rute.
Olhei para ela um pouco confuso. Ela sabia do que estava falando, embora o poema não estivesse ainda em meu caderno quando ela o pegou de manhã. Olhava para mim com os mesmos olhos tristes de quando nos despedimos, mas sem hesitar, sem desviar-se dos meus nem por um segundo. E então, movido por uma força que não vinha de mim, mas dos séculos, passei o braço sobre sua cintura e a puxei para mais perto.
Foi minha primeira noite de amor, e estou certo de que foi também a dela. Nervosos e sem jeito, ríamos como crianças; e ela reclamava que as minha mãos estavam frias, e eu reclamava que as minhas mãos doíam com os espinhos da tuna – mas nos beijávamos continuamente, e ríamos de novo, e renovávamos o amor e a eternidade sob o calor dos nossos ponchos.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Para dizer coisas azuis
Primeiro: sopre uma palavra qualquer dentro de uma bolinha de sabão. Não pronuncie em voz alta. Não escolha. Só pense na palavra e sopre.
Segundo: só chore se for por acaso. Não invoque uma tristeza que já está suficientemente presente nos momentos bons. Prefira acreditar que hoje é mais ou menos o dia mais feliz de sua vida.
Terceiro: tenha uns dois ou três amigos por perto, para o caso de acabar chorando.
Quarto: perceba que você ainda é criança em algum lugar. Olhe o mundo desse jeito – sendo criança – mas não diga nada a ninguém. Deixe o tempo formular combinações melhores entre ontem e hoje.
Quinto: ame como um louco. Morra de amor, grite, esperneie. Depois espere vir a noite e a chuva e saia para dançar sozinho, sem nenhuma pressa.
Segundo: só chore se for por acaso. Não invoque uma tristeza que já está suficientemente presente nos momentos bons. Prefira acreditar que hoje é mais ou menos o dia mais feliz de sua vida.
Terceiro: tenha uns dois ou três amigos por perto, para o caso de acabar chorando.
Quarto: perceba que você ainda é criança em algum lugar. Olhe o mundo desse jeito – sendo criança – mas não diga nada a ninguém. Deixe o tempo formular combinações melhores entre ontem e hoje.
Quinto: ame como um louco. Morra de amor, grite, esperneie. Depois espere vir a noite e a chuva e saia para dançar sozinho, sem nenhuma pressa.
sábado, 29 de agosto de 2009
Revelação
Esse tremor, a hesitação que sentimos quando desvendamos algo que talvez fosse melhor permanecer oculto. Olhamos em volta à espera da reprovação – qual outra consequência existe? – enquanto as nossas mentes já começam a encobrir o novo com a decisão: Não, eu não vi. E então saímos a pensar sobre outras coisas, desejando ardentemente acreditar ainda nelas – como se não fosse inevitável, como se já não soubéssemos bem antes que o segredo revelado alteraria para sempre o curso de nossas vidas.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Brisa
(Memórias)
O sol estava se pondo em Valfenda. Eu e meu irmão nos sentamos no terraço para conversar, entre flores, sob um céu de cores quentes: tudo estava imerso em uma paz absoluta. “O tempo para pra eu passar”, cantei de repente. E concordamos que, no fundo, Brisa era uma música triste. Mas – estranhamente emocionados – concluímos que tinha sido escrita por um anjo.
Foi uma das primeiras músicas que compusemos juntos. Nunca entendi direito aquele sonho de anos mais tarde, nem via nada de tão extraordinário assim em Brisa. De qualquer forma, era fato que tínhamos por ela um carinho especial; e entre amigos, quando estávamos em um bar ou em uma festa e não gostávamos da banda, esperávamos pelo intervalo entre uma música e outra para lançar bem alto o desafio:
– Toca Brisa!
Não tenho certeza de que a chuva dançava mesmo pelo céu na hora em que escrevemos a primeira frase. Tenho a impressão de que era apenas uma manhã cinza. Até porque, depois que nos enrolamos no meio da música, decidimos ir terminá-la ao ar livre, em um dos parques da cidade. E foi assim que o Bosque Alemão ofereceu a imagem que faltava à nossa canção sobre um lugar que desperta e ainda sonha, sem pedidos nem metades.
Um grupo de alunos de uns seis ou sete anos passeava pelo parque. E, em nossa música, aquelas crianças eram tinta escorrendo pelo chão de pés descalços, cores brincando distraídas no jardim e o medo desaparecendo devagar em um sorriso.
Então eu não entendo como Brisa pode ser no fundo uma música triste.
Mas sim, acho que entendo o anjo.
O sol estava se pondo em Valfenda. Eu e meu irmão nos sentamos no terraço para conversar, entre flores, sob um céu de cores quentes: tudo estava imerso em uma paz absoluta. “O tempo para pra eu passar”, cantei de repente. E concordamos que, no fundo, Brisa era uma música triste. Mas – estranhamente emocionados – concluímos que tinha sido escrita por um anjo.
Foi uma das primeiras músicas que compusemos juntos. Nunca entendi direito aquele sonho de anos mais tarde, nem via nada de tão extraordinário assim em Brisa. De qualquer forma, era fato que tínhamos por ela um carinho especial; e entre amigos, quando estávamos em um bar ou em uma festa e não gostávamos da banda, esperávamos pelo intervalo entre uma música e outra para lançar bem alto o desafio:
– Toca Brisa!
Não tenho certeza de que a chuva dançava mesmo pelo céu na hora em que escrevemos a primeira frase. Tenho a impressão de que era apenas uma manhã cinza. Até porque, depois que nos enrolamos no meio da música, decidimos ir terminá-la ao ar livre, em um dos parques da cidade. E foi assim que o Bosque Alemão ofereceu a imagem que faltava à nossa canção sobre um lugar que desperta e ainda sonha, sem pedidos nem metades.
Um grupo de alunos de uns seis ou sete anos passeava pelo parque. E, em nossa música, aquelas crianças eram tinta escorrendo pelo chão de pés descalços, cores brincando distraídas no jardim e o medo desaparecendo devagar em um sorriso.
Então eu não entendo como Brisa pode ser no fundo uma música triste.
Mas sim, acho que entendo o anjo.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Duplo
Algo me detém antes da curva, ou de fechar a porta: são olhos meus em outro rosto, é um pouco estranho. Ela – porque é “ela”, e nada disso é extraordinário – agita uma taça de cristal com sal na borda, batom na boca, derrama um punhado de palavrazinhas e eu escuto a minha voz pensar em outra voz, em outro sexo, outra saliva. E eu me embriago de mim. Mas nela. Somos de uma mesma tempestade interna, dos mesmos barcos naufragados, da mesma superfície clara e limpa conquistada à força? Do mesmo sopro? Ficamos assim. Imóveis, contidos. Não diremos um ao outro o que se passa no mais obscuro de nós mesmos – um pouco porque não importa, um pouco porque já sabemos – e nos olhamos de longe antes da curva ou de fechar a porta e finalmente agradecemos. Agradecemos? Agradecemos. Porque estamos sim completamente sós. Mas nunca é tanto.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Errante
Duas horas para o beijo azul dessa melancolia. Os dedos estendidos, minhas mãos abertas e voltadas para uma garoa que inventei: a tarde é fria, e cinza, e há todas essas coisas que se dissolveram pelo tempo longo de não terem sido ditas. Quanto eu te amei. Quanto eu fui feliz por um dia. Se a vida, o mundo, os deuses te entregassem! – mas apenas contemplar, obra divina, mármore, Helena do meu sofrimento lento. Ou arrancar meu coração com as mãos e vê-lo consumido, exausto, negro. Duas horas para me esquecer de ti, eu que não me esqueço nunca. Guerras inúteis. Estradas de tijolos cor-de-chumbo. Duas horas. Contra uma ausência interminável.
E é à terra que reclamam. Meus pés, confundidos neste território vasto e sem vida. Como é possível?, me pergunto. Como eu suporto ser tão nítida essa tua imagem?
E é à terra que reclamam. Meus pés, confundidos neste território vasto e sem vida. Como é possível?, me pergunto. Como eu suporto ser tão nítida essa tua imagem?
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Como domesticar um lobo
Aos nove anos eu já era assim calado e solitário, inventando os meus brinquedos no vazio do sótão que era meu quarto de dormir. Vivíamos na fazenda apenas eu, meus pais e dona Laura, uma senhora triste e trabalhadeira que eu nunca soube ao certo como foi parar ali. Sem amigos, sem outra companhia em casa além de livros coloridos e brinquedos inventados, frequentemente eu fugia para explorar o território interminável da fazenda; e passava as tardes em duelos mortais com os galhos baixos das árvores, descobrindo aldeias e tesouros escondidos, sentindo-me um pequeno rei selvagem como Tarzan ou Mogli ou observando longa e atentamente as águas do riacho a imaginar o que haveria de tão perigoso nele ou do outro lado para que minha mãe me proibisse de tentar atravessá-lo. E era tudo muito vivo e sólido para que eu compreendesse o peso negativo da palavra “solidão”: o mundo era eterno e renovável de dentro para fora a cada dia, e todo o necessário estava ali, no meu próprio reino mágico e real, ao alcance dos meus dedos.
Talvez por isso eu tenha me escondido em meu quarto no dia em que Júlia chegou à nossa casa. A despeito da insistência de minha mãe para que eu recebesse bem a sobrinha-neta de dona Laura que estaria “fragilizada por perder os pais”, que “viveria conosco”, e “deveria ser tratada desde seu primeiro dia ali como a irmã que a partir de então eu ia ter”. E foi preciso que meu pai me arrastasse pela orelha escada abaixo e me obrigasse a sorrir e a dizer meu nome diante daqueles olhos imensos e azuis de quem invadia o meu reino. Aqueles olhos imensos e azuis. Não me lembro de ter reparado em nada mais naquele fim de tarde. Júlia tinha a mesma idade que eu e era delicada e generosa, quase tão quieta quanto eu, um anjo, uma alma irmã de muitas outras vidas. Na manhã seguinte éramos velhos conhecidos, embora tímidos, jogando com os brinquedos um do outro exatamente como o outro – como se já soubéssemos o que fazer de tanto tê-lo visto. Júlia, minha querida irmã, minha metade eterna.
Aquela felicidade durou menos de dois anos, mas alterou para sempre o meu modo de agir à medida em que me trazia à tona, ao mundo das relações. Começou com um fato banal, em uma tarde em que brincávamos diante da casa. Nem sei explicar como uma coisa tão pequena quanto aquela pode ter feito tanta diferença. Mas foi assim: eu estava zombando dela porque seu vestido ficou sujo de terra depois que ela caiu, então ela bateu em meu braço e disse “bobo” – mas meio sorrindo, achando graça no mesmo que eu, aceitando como jogo o ato de provocar o outro. Então eu não soube o que dizer nem como reagir. Tive vontade de fugir dali, porque eu estava enfrentando qualquer coisa com que eu definitivamente não sabia lidar.
E foi assim que fomos nos aproximando cada dia mais, enquanto eu ensinava a ela a subir em árvores, enfurecer os cavalos ou procurar por diamantes na parte rasa do riacho. Júlia era de certa forma uma extensão autônoma de mim, e só depois de muito tempo foi que eu percebi que andávamos de mãos dadas de um lado para o outro – por causa do único comentário sorridente que eu me lembro de ter visto um dia dona Laura fazer. Meu reino continuava sendo meu; e embora o de Júlia pudesse ser ligeiramente diferente, não havia entre nós necessidade alguma de fusão, nem de fronteiras, nem de conquistas e transformações: as duas realidades eram simplesmente duas realidades ocupando o mesmo espaço, irradiando-se continuamente de uma para a outra, pulsando juntas, doando e recebendo sem cobranças tudo o que gerassem de melhor.
Hoje acredito que o tempo de duração da nossa história não foi mais nem menos do que o necessário para que eu aprendesse a conviver com os outros sendo lobo. Porque não era preciso alterar quem eu era, desde que eu soubesse – como eu soube – de que parte minha brotava forte e saudável a árvore do meu amor humano. Júlia morreu afogada no dia do meu aniversário de onze anos. Não me deixaram vê-la; não permitiram que eu me despedisse. Mas nem imagino por que seria necessário: levaria aquela irmã comigo ao longo de todos os meus dias, mesmo depois de ter tido outros reinos ou amores. E assim eu poderia alimentar ao menos a ilusão de que ela não morreu de fato, mas foi levada embora, para viver quem sabe com outra tia-avó, longe de mim – talvez como um castigo por ter feito amadurecer tão cedo em meu coração de menino esse fruto obscuro, açucarado e quente que até hoje poucos sabem que é possível decifrar.
Talvez por isso eu tenha me escondido em meu quarto no dia em que Júlia chegou à nossa casa. A despeito da insistência de minha mãe para que eu recebesse bem a sobrinha-neta de dona Laura que estaria “fragilizada por perder os pais”, que “viveria conosco”, e “deveria ser tratada desde seu primeiro dia ali como a irmã que a partir de então eu ia ter”. E foi preciso que meu pai me arrastasse pela orelha escada abaixo e me obrigasse a sorrir e a dizer meu nome diante daqueles olhos imensos e azuis de quem invadia o meu reino. Aqueles olhos imensos e azuis. Não me lembro de ter reparado em nada mais naquele fim de tarde. Júlia tinha a mesma idade que eu e era delicada e generosa, quase tão quieta quanto eu, um anjo, uma alma irmã de muitas outras vidas. Na manhã seguinte éramos velhos conhecidos, embora tímidos, jogando com os brinquedos um do outro exatamente como o outro – como se já soubéssemos o que fazer de tanto tê-lo visto. Júlia, minha querida irmã, minha metade eterna.
Aquela felicidade durou menos de dois anos, mas alterou para sempre o meu modo de agir à medida em que me trazia à tona, ao mundo das relações. Começou com um fato banal, em uma tarde em que brincávamos diante da casa. Nem sei explicar como uma coisa tão pequena quanto aquela pode ter feito tanta diferença. Mas foi assim: eu estava zombando dela porque seu vestido ficou sujo de terra depois que ela caiu, então ela bateu em meu braço e disse “bobo” – mas meio sorrindo, achando graça no mesmo que eu, aceitando como jogo o ato de provocar o outro. Então eu não soube o que dizer nem como reagir. Tive vontade de fugir dali, porque eu estava enfrentando qualquer coisa com que eu definitivamente não sabia lidar.
E foi assim que fomos nos aproximando cada dia mais, enquanto eu ensinava a ela a subir em árvores, enfurecer os cavalos ou procurar por diamantes na parte rasa do riacho. Júlia era de certa forma uma extensão autônoma de mim, e só depois de muito tempo foi que eu percebi que andávamos de mãos dadas de um lado para o outro – por causa do único comentário sorridente que eu me lembro de ter visto um dia dona Laura fazer. Meu reino continuava sendo meu; e embora o de Júlia pudesse ser ligeiramente diferente, não havia entre nós necessidade alguma de fusão, nem de fronteiras, nem de conquistas e transformações: as duas realidades eram simplesmente duas realidades ocupando o mesmo espaço, irradiando-se continuamente de uma para a outra, pulsando juntas, doando e recebendo sem cobranças tudo o que gerassem de melhor.
Hoje acredito que o tempo de duração da nossa história não foi mais nem menos do que o necessário para que eu aprendesse a conviver com os outros sendo lobo. Porque não era preciso alterar quem eu era, desde que eu soubesse – como eu soube – de que parte minha brotava forte e saudável a árvore do meu amor humano. Júlia morreu afogada no dia do meu aniversário de onze anos. Não me deixaram vê-la; não permitiram que eu me despedisse. Mas nem imagino por que seria necessário: levaria aquela irmã comigo ao longo de todos os meus dias, mesmo depois de ter tido outros reinos ou amores. E assim eu poderia alimentar ao menos a ilusão de que ela não morreu de fato, mas foi levada embora, para viver quem sabe com outra tia-avó, longe de mim – talvez como um castigo por ter feito amadurecer tão cedo em meu coração de menino esse fruto obscuro, açucarado e quente que até hoje poucos sabem que é possível decifrar.
domingo, 2 de agosto de 2009
Invocação
Esteja ao meu lado quando cair a noite. Quando eu me perder de tudo, e parecer silêncio o vai-e-vem dos carros na avenida, e parecer solidão o eco insistente da memória. Esteja ao meu lado, deus, cosmos, confiança. Esteja ao meu lado quando restar apenas gravidade do tempo sobre este corpo que percorre as ruas, reflexo nas vitrines, pensando tão-somente em proteger-se contra o frio do inverno. Quando o sinal abrir, e eu ficar preso do lado errado da rua, e eu afundar o queixo no casaco, as mãos nos bolsos, o coração em uma inexplicável nostalgia. Esteja ao meu lado. Luz. Beleza. Sensação da mais acolhedora eternidade.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Das pequenas mudanças
Não deixe que te enganem, meu bebê: aqui não somos livres para acreditar em qualquer coisa. Dizer o contrário é só um recurso básico da hipnose. Não vá espalhando por aí que nosso amor é eterno e puro, que vivemos de brisa e de bondade ou que estamos semeando um mundo para a oitava geração depois da nossa: não se deve perturbar assim o sono de tanta gente. Qualquer verdade, bebê, em tempos tão confusos como os nossos, só deve ser passada adiante no mercado negro, dentro dos queijos ou dos tubos de pasta de dente. Até que um dia, às sete da manhã, depois de ver a própria cara sem brilho e amassada no espelho, um joão-ninguém vai reparar no despertar dos filhos e exclamar: "Não é que é mesmo!?"... e nossa última revolução será feita de pequenas implosões, não do contrário. Porque o mundo, bebê, o mundo real e esquecido é feito desses joão-ninguéns – de sua ternura contida, da esperança guardada, do encantamento abafado diante da beleza que persiste. Mas também não tenha pressa, meu bebê: nenhum trabalho importante é para ontem. Temos ainda muito tempo. Descanse em minha casa por enquanto, beba um chá, aceite um pedacinho deste queijo. Mastigue devagar e com prazer. Antes, e acima de tudo, não deixe que te vendam o seu medo – crescer demora, meu bebê, e o mundo desabar seria só o começo.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Não foi
Mas se anunciou com todas as letras em neon: felicidade, ou qualquer coisa assim – e se parecia mesmo à estrela cadente que uma vez atravessou o meu Natal, há muito tempo, quando eu apenas conhecia o mundo. Delicadamente azul; ligeira e de um fascínio absoluto. Fiz um pedido. Nada atendeu. Faltou o chão na hora do passo, a mão, o bolso, a chave de uma porta súbita. – Este menino não se acostumou ainda, vejam só, a ter o que era muito mais do que esperança, a ter certeza, a ser guiado por essa certeza luminosa e de repente estar em queda livre, só, no mais absurdo escuro, confuso, tonto, sem saber – que foi que aconteceu, meu Deus?! Ah, mas este menino que não cresce nunca... Eu tinha era vontade de escrever e de chorar, e de escrever chorando, e de chorar em cada palavra que escrevia; queria morrer, queria não ser, queria passar. Nada passou. A gente se acostuma a não ter sido. Sorri. E o gosto do sorriso é quase bom.
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