Senti pequenas pontadas em toda a mão quando toquei a laranja. Nas ruínas de São João Batista, um pouco antes, eu havia provado o fruto de um cacto chamado tuna, comestível segundo a plaquinha ao lado – mas a plaquinha não dizia nada sobre não usar as mãos para tirar os espinhos. Dessa vez, pensei, estaria seguro; mas quando tirei a laranja do galho, ouvi uma voz vinda de não sei onde:
– Quem disse que você podia?
Uns doze passos adiante, um pouco escondido pelas laranjeiras, um índio adolescente, mais ou menos de minha idade, olhava para mim com a cabeça erguida em tom de desafio.
– Foi um espírito da terra – eu disse devagar. – Você não ouviu?
O índio deu uma sonora gargalhada e caminhou em minha direção. Estávamos no sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo, o mais bem conservado da região das Missões, numa manhã calma e ensolarada de sábado. O menino se chamava André e estava acompanhado por sua irmã mais nova, Rute, que de início preferiu ficar à distância me observando. Contei a eles que já tinha estado ali na tarde anterior, mas que naquela manhã, com tempo livre e o pouco de dinheiro que meus pais me deram, tinha resolvido voltar e aproveitar a boa energia do sítio para escrever poemas. E ficamos assim durante algumas horas, André contando histórias do lugar e de Sepé Tiaraju, eu falando de São Paulo e das comodidades dos shoppings, Rute folheando em silêncio o meu caderno de poemas.
– Você precisa ver este lugar à noite – disse André a certa altura. Rute ergueu os olhos para o céu e, com uma voz muito baixa, acrescentou:
– Hoje à noite vai estar bonito.
André explicou que eles sabiam de um jeito de entrar sem serem vistos, e sugeriu que eu fosse me encontrar com eles perto dali um pouco antes da meia-noite. Aceitei de imediato. Sabia que todos estariam dormindo, porque viajaríamos bem cedo na manhã seguinte, e assim eu não teria dificuldade em despistar meus pais. Quando me despedi, confirmando que os encontraria no local indicado, mal reparei nos olhos tristes de Rute ao me beijar no rosto.
Passei a tarde com meus pais em Santo Ângelo, sem mais ver muita graça no ambiente urbano e desejando ardentemente que a noite chegasse logo. Sentado em um banco da praça, enquanto meus pais compravam ponchos que nunca teríamos coragem de usar em São Paulo, escrevi um longo poema sobre um lugar iluminado de sonho e memória, um lugar onde ficar para sempre: o pequeno paraíso em que povos de culturas diferentes ensaiaram, havia tanto tempo, uma convivência harmoniosa que nunca tinha chegado a se concretizar de fato.
À noite, na hora marcada, esperei por André e Rute com aquela sensação irrecuperável de aventura adolescente. Fazia frio, e eu estava cansado de um dia muito longo, mas tinha certeza de que poderia passar a noite ali sem o menor vestígio de sono. Um pouco depois da meia-noite, com um poncho cor-de-rosa combinando com o gorro, Rute dobrou a esquina e caminhou sozinha em minha direção, sem olhar para mim até que estivesse a menos de três passos, quando informou, com a mesma voz baixa que eu ouvira naquela manhã:
– Meu irmão não vem.
Por um segundo, achei que a aventura da noite estava cancelada. Mas depois, sem dizer mais nada, com uma segurança que até então eu nem imaginava que veria nela, Rute me pegou pela mão e me conduziu direto para o interior do sítio. Levou-me até um ponto relativamente protegido pelas árvores onde, segundo ela, seria impossível sermos surpreendidos pelo vigia, e sugeriu que nos deitássemos usando nossos ponchos como cobertores. Eu era guiado sem resistência, um pouco surpreso, mas ao mesmo tempo estranhamente à vontade. Quando rompi o silêncio e, já deitado, comecei a conversar sobre as constelações que eu conhecia pelo nome, apesar de nunca tê-las visto no céu de São Paulo, parecia que estivera ali desde sempre, ao lado de Rute, sob aquele céu absurdamente amplo e branco de estrelas.
– E não é mesmo um lugar onde ficar para sempre? – perguntou Rute.
Olhei para ela um pouco confuso. Ela sabia do que estava falando, embora o poema não estivesse ainda em meu caderno quando ela o pegou de manhã. Olhava para mim com os mesmos olhos tristes de quando nos despedimos, mas sem hesitar, sem desviar-se dos meus nem por um segundo. E então, movido por uma força que não vinha de mim, mas dos séculos, passei o braço sobre sua cintura e a puxei para mais perto.
Foi minha primeira noite de amor, e estou certo de que foi também a dela. Nervosos e sem jeito, ríamos como crianças; e ela reclamava que as minha mãos estavam frias, e eu reclamava que as minhas mãos doíam com os espinhos da tuna – mas nos beijávamos continuamente, e ríamos de novo, e renovávamos o amor e a eternidade sob o calor dos nossos ponchos.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Para dizer coisas azuis
Primeiro: sopre uma palavra qualquer dentro de uma bolinha de sabão. Não pronuncie em voz alta. Não escolha. Só pense na palavra e sopre.
Segundo: só chore se for por acaso. Não invoque uma tristeza que já está suficientemente presente nos momentos bons. Prefira acreditar que hoje é mais ou menos o dia mais feliz de sua vida.
Terceiro: tenha uns dois ou três amigos por perto, para o caso de acabar chorando.
Quarto: perceba que você ainda é criança em algum lugar. Olhe o mundo desse jeito – sendo criança – mas não diga nada a ninguém. Deixe o tempo formular combinações melhores entre ontem e hoje.
Quinto: ame como um louco. Morra de amor, grite, esperneie. Depois espere vir a noite e a chuva e saia para dançar sozinho, sem nenhuma pressa.
Segundo: só chore se for por acaso. Não invoque uma tristeza que já está suficientemente presente nos momentos bons. Prefira acreditar que hoje é mais ou menos o dia mais feliz de sua vida.
Terceiro: tenha uns dois ou três amigos por perto, para o caso de acabar chorando.
Quarto: perceba que você ainda é criança em algum lugar. Olhe o mundo desse jeito – sendo criança – mas não diga nada a ninguém. Deixe o tempo formular combinações melhores entre ontem e hoje.
Quinto: ame como um louco. Morra de amor, grite, esperneie. Depois espere vir a noite e a chuva e saia para dançar sozinho, sem nenhuma pressa.
sábado, 29 de agosto de 2009
Revelação
Esse tremor, a hesitação que sentimos quando desvendamos algo que talvez fosse melhor permanecer oculto. Olhamos em volta à espera da reprovação – qual outra consequência existe? – enquanto as nossas mentes já começam a encobrir o novo com a decisão: Não, eu não vi. E então saímos a pensar sobre outras coisas, desejando ardentemente acreditar ainda nelas – como se não fosse inevitável, como se já não soubéssemos bem antes que o segredo revelado alteraria para sempre o curso de nossas vidas.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Brisa
(Memórias)
O sol estava se pondo em Valfenda. Eu e meu irmão nos sentamos no terraço para conversar, entre flores, sob um céu de cores quentes: tudo estava imerso em uma paz absoluta. “O tempo para pra eu passar”, cantei de repente. E concordamos que, no fundo, Brisa era uma música triste. Mas – estranhamente emocionados – concluímos que tinha sido escrita por um anjo.
Foi uma das primeiras músicas que compusemos juntos. Nunca entendi direito aquele sonho de anos mais tarde, nem via nada de tão extraordinário assim em Brisa. De qualquer forma, era fato que tínhamos por ela um carinho especial; e entre amigos, quando estávamos em um bar ou em uma festa e não gostávamos da banda, esperávamos pelo intervalo entre uma música e outra para lançar bem alto o desafio:
– Toca Brisa!
Não tenho certeza de que a chuva dançava mesmo pelo céu na hora em que escrevemos a primeira frase. Tenho a impressão de que era apenas uma manhã cinza. Até porque, depois que nos enrolamos no meio da música, decidimos ir terminá-la ao ar livre, em um dos parques da cidade. E foi assim que o Bosque Alemão ofereceu a imagem que faltava à nossa canção sobre um lugar que desperta e ainda sonha, sem pedidos nem metades.
Um grupo de alunos de uns seis ou sete anos passeava pelo parque. E, em nossa música, aquelas crianças eram tinta escorrendo pelo chão de pés descalços, cores brincando distraídas no jardim e o medo desaparecendo devagar em um sorriso.
Então eu não entendo como Brisa pode ser no fundo uma música triste.
Mas sim, acho que entendo o anjo.
O sol estava se pondo em Valfenda. Eu e meu irmão nos sentamos no terraço para conversar, entre flores, sob um céu de cores quentes: tudo estava imerso em uma paz absoluta. “O tempo para pra eu passar”, cantei de repente. E concordamos que, no fundo, Brisa era uma música triste. Mas – estranhamente emocionados – concluímos que tinha sido escrita por um anjo.
Foi uma das primeiras músicas que compusemos juntos. Nunca entendi direito aquele sonho de anos mais tarde, nem via nada de tão extraordinário assim em Brisa. De qualquer forma, era fato que tínhamos por ela um carinho especial; e entre amigos, quando estávamos em um bar ou em uma festa e não gostávamos da banda, esperávamos pelo intervalo entre uma música e outra para lançar bem alto o desafio:
– Toca Brisa!
Não tenho certeza de que a chuva dançava mesmo pelo céu na hora em que escrevemos a primeira frase. Tenho a impressão de que era apenas uma manhã cinza. Até porque, depois que nos enrolamos no meio da música, decidimos ir terminá-la ao ar livre, em um dos parques da cidade. E foi assim que o Bosque Alemão ofereceu a imagem que faltava à nossa canção sobre um lugar que desperta e ainda sonha, sem pedidos nem metades.
Um grupo de alunos de uns seis ou sete anos passeava pelo parque. E, em nossa música, aquelas crianças eram tinta escorrendo pelo chão de pés descalços, cores brincando distraídas no jardim e o medo desaparecendo devagar em um sorriso.
Então eu não entendo como Brisa pode ser no fundo uma música triste.
Mas sim, acho que entendo o anjo.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Duplo
Algo me detém antes da curva, ou de fechar a porta: são olhos meus em outro rosto, é um pouco estranho. Ela – porque é “ela”, e nada disso é extraordinário – agita uma taça de cristal com sal na borda, batom na boca, derrama um punhado de palavrazinhas e eu escuto a minha voz pensar em outra voz, em outro sexo, outra saliva. E eu me embriago de mim. Mas nela. Somos de uma mesma tempestade interna, dos mesmos barcos naufragados, da mesma superfície clara e limpa conquistada à força? Do mesmo sopro? Ficamos assim. Imóveis, contidos. Não diremos um ao outro o que se passa no mais obscuro de nós mesmos – um pouco porque não importa, um pouco porque já sabemos – e nos olhamos de longe antes da curva ou de fechar a porta e finalmente agradecemos. Agradecemos? Agradecemos. Porque estamos sim completamente sós. Mas nunca é tanto.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Errante
Duas horas para o beijo azul dessa melancolia. Os dedos estendidos, minhas mãos abertas e voltadas para uma garoa que inventei: a tarde é fria, e cinza, e há todas essas coisas que se dissolveram pelo tempo longo de não terem sido ditas. Quanto eu te amei. Quanto eu fui feliz por um dia. Se a vida, o mundo, os deuses te entregassem! – mas apenas contemplar, obra divina, mármore, Helena do meu sofrimento lento. Ou arrancar meu coração com as mãos e vê-lo consumido, exausto, negro. Duas horas para me esquecer de ti, eu que não me esqueço nunca. Guerras inúteis. Estradas de tijolos cor-de-chumbo. Duas horas. Contra uma ausência interminável.
E é à terra que reclamam. Meus pés, confundidos neste território vasto e sem vida. Como é possível?, me pergunto. Como eu suporto ser tão nítida essa tua imagem?
E é à terra que reclamam. Meus pés, confundidos neste território vasto e sem vida. Como é possível?, me pergunto. Como eu suporto ser tão nítida essa tua imagem?
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Como domesticar um lobo
Aos nove anos eu já era assim calado e solitário, inventando os meus brinquedos no vazio do sótão que era meu quarto de dormir. Vivíamos na fazenda apenas eu, meus pais e dona Laura, uma senhora triste e trabalhadeira que eu nunca soube ao certo como foi parar ali. Sem amigos, sem outra companhia em casa além de livros coloridos e brinquedos inventados, frequentemente eu fugia para explorar o território interminável da fazenda; e passava as tardes em duelos mortais com os galhos baixos das árvores, descobrindo aldeias e tesouros escondidos, sentindo-me um pequeno rei selvagem como Tarzan ou Mogli ou observando longa e atentamente as águas do riacho a imaginar o que haveria de tão perigoso nele ou do outro lado para que minha mãe me proibisse de tentar atravessá-lo. E era tudo muito vivo e sólido para que eu compreendesse o peso negativo da palavra “solidão”: o mundo era eterno e renovável de dentro para fora a cada dia, e todo o necessário estava ali, no meu próprio reino mágico e real, ao alcance dos meus dedos.
Talvez por isso eu tenha me escondido em meu quarto no dia em que Júlia chegou à nossa casa. A despeito da insistência de minha mãe para que eu recebesse bem a sobrinha-neta de dona Laura que estaria “fragilizada por perder os pais”, que “viveria conosco”, e “deveria ser tratada desde seu primeiro dia ali como a irmã que a partir de então eu ia ter”. E foi preciso que meu pai me arrastasse pela orelha escada abaixo e me obrigasse a sorrir e a dizer meu nome diante daqueles olhos imensos e azuis de quem invadia o meu reino. Aqueles olhos imensos e azuis. Não me lembro de ter reparado em nada mais naquele fim de tarde. Júlia tinha a mesma idade que eu e era delicada e generosa, quase tão quieta quanto eu, um anjo, uma alma irmã de muitas outras vidas. Na manhã seguinte éramos velhos conhecidos, embora tímidos, jogando com os brinquedos um do outro exatamente como o outro – como se já soubéssemos o que fazer de tanto tê-lo visto. Júlia, minha querida irmã, minha metade eterna.
Aquela felicidade durou menos de dois anos, mas alterou para sempre o meu modo de agir à medida em que me trazia à tona, ao mundo das relações. Começou com um fato banal, em uma tarde em que brincávamos diante da casa. Nem sei explicar como uma coisa tão pequena quanto aquela pode ter feito tanta diferença. Mas foi assim: eu estava zombando dela porque seu vestido ficou sujo de terra depois que ela caiu, então ela bateu em meu braço e disse “bobo” – mas meio sorrindo, achando graça no mesmo que eu, aceitando como jogo o ato de provocar o outro. Então eu não soube o que dizer nem como reagir. Tive vontade de fugir dali, porque eu estava enfrentando qualquer coisa com que eu definitivamente não sabia lidar.
E foi assim que fomos nos aproximando cada dia mais, enquanto eu ensinava a ela a subir em árvores, enfurecer os cavalos ou procurar por diamantes na parte rasa do riacho. Júlia era de certa forma uma extensão autônoma de mim, e só depois de muito tempo foi que eu percebi que andávamos de mãos dadas de um lado para o outro – por causa do único comentário sorridente que eu me lembro de ter visto um dia dona Laura fazer. Meu reino continuava sendo meu; e embora o de Júlia pudesse ser ligeiramente diferente, não havia entre nós necessidade alguma de fusão, nem de fronteiras, nem de conquistas e transformações: as duas realidades eram simplesmente duas realidades ocupando o mesmo espaço, irradiando-se continuamente de uma para a outra, pulsando juntas, doando e recebendo sem cobranças tudo o que gerassem de melhor.
Hoje acredito que o tempo de duração da nossa história não foi mais nem menos do que o necessário para que eu aprendesse a conviver com os outros sendo lobo. Porque não era preciso alterar quem eu era, desde que eu soubesse – como eu soube – de que parte minha brotava forte e saudável a árvore do meu amor humano. Júlia morreu afogada no dia do meu aniversário de onze anos. Não me deixaram vê-la; não permitiram que eu me despedisse. Mas nem imagino por que seria necessário: levaria aquela irmã comigo ao longo de todos os meus dias, mesmo depois de ter tido outros reinos ou amores. E assim eu poderia alimentar ao menos a ilusão de que ela não morreu de fato, mas foi levada embora, para viver quem sabe com outra tia-avó, longe de mim – talvez como um castigo por ter feito amadurecer tão cedo em meu coração de menino esse fruto obscuro, açucarado e quente que até hoje poucos sabem que é possível decifrar.
Talvez por isso eu tenha me escondido em meu quarto no dia em que Júlia chegou à nossa casa. A despeito da insistência de minha mãe para que eu recebesse bem a sobrinha-neta de dona Laura que estaria “fragilizada por perder os pais”, que “viveria conosco”, e “deveria ser tratada desde seu primeiro dia ali como a irmã que a partir de então eu ia ter”. E foi preciso que meu pai me arrastasse pela orelha escada abaixo e me obrigasse a sorrir e a dizer meu nome diante daqueles olhos imensos e azuis de quem invadia o meu reino. Aqueles olhos imensos e azuis. Não me lembro de ter reparado em nada mais naquele fim de tarde. Júlia tinha a mesma idade que eu e era delicada e generosa, quase tão quieta quanto eu, um anjo, uma alma irmã de muitas outras vidas. Na manhã seguinte éramos velhos conhecidos, embora tímidos, jogando com os brinquedos um do outro exatamente como o outro – como se já soubéssemos o que fazer de tanto tê-lo visto. Júlia, minha querida irmã, minha metade eterna.
Aquela felicidade durou menos de dois anos, mas alterou para sempre o meu modo de agir à medida em que me trazia à tona, ao mundo das relações. Começou com um fato banal, em uma tarde em que brincávamos diante da casa. Nem sei explicar como uma coisa tão pequena quanto aquela pode ter feito tanta diferença. Mas foi assim: eu estava zombando dela porque seu vestido ficou sujo de terra depois que ela caiu, então ela bateu em meu braço e disse “bobo” – mas meio sorrindo, achando graça no mesmo que eu, aceitando como jogo o ato de provocar o outro. Então eu não soube o que dizer nem como reagir. Tive vontade de fugir dali, porque eu estava enfrentando qualquer coisa com que eu definitivamente não sabia lidar.
E foi assim que fomos nos aproximando cada dia mais, enquanto eu ensinava a ela a subir em árvores, enfurecer os cavalos ou procurar por diamantes na parte rasa do riacho. Júlia era de certa forma uma extensão autônoma de mim, e só depois de muito tempo foi que eu percebi que andávamos de mãos dadas de um lado para o outro – por causa do único comentário sorridente que eu me lembro de ter visto um dia dona Laura fazer. Meu reino continuava sendo meu; e embora o de Júlia pudesse ser ligeiramente diferente, não havia entre nós necessidade alguma de fusão, nem de fronteiras, nem de conquistas e transformações: as duas realidades eram simplesmente duas realidades ocupando o mesmo espaço, irradiando-se continuamente de uma para a outra, pulsando juntas, doando e recebendo sem cobranças tudo o que gerassem de melhor.
Hoje acredito que o tempo de duração da nossa história não foi mais nem menos do que o necessário para que eu aprendesse a conviver com os outros sendo lobo. Porque não era preciso alterar quem eu era, desde que eu soubesse – como eu soube – de que parte minha brotava forte e saudável a árvore do meu amor humano. Júlia morreu afogada no dia do meu aniversário de onze anos. Não me deixaram vê-la; não permitiram que eu me despedisse. Mas nem imagino por que seria necessário: levaria aquela irmã comigo ao longo de todos os meus dias, mesmo depois de ter tido outros reinos ou amores. E assim eu poderia alimentar ao menos a ilusão de que ela não morreu de fato, mas foi levada embora, para viver quem sabe com outra tia-avó, longe de mim – talvez como um castigo por ter feito amadurecer tão cedo em meu coração de menino esse fruto obscuro, açucarado e quente que até hoje poucos sabem que é possível decifrar.
domingo, 2 de agosto de 2009
Invocação
Esteja ao meu lado quando cair a noite. Quando eu me perder de tudo, e parecer silêncio o vai-e-vem dos carros na avenida, e parecer solidão o eco insistente da memória. Esteja ao meu lado, deus, cosmos, confiança. Esteja ao meu lado quando restar apenas gravidade do tempo sobre este corpo que percorre as ruas, reflexo nas vitrines, pensando tão-somente em proteger-se contra o frio do inverno. Quando o sinal abrir, e eu ficar preso do lado errado da rua, e eu afundar o queixo no casaco, as mãos nos bolsos, o coração em uma inexplicável nostalgia. Esteja ao meu lado. Luz. Beleza. Sensação da mais acolhedora eternidade.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Das pequenas mudanças
Não deixe que te enganem, meu bebê: aqui não somos livres para acreditar em qualquer coisa. Dizer o contrário é só um recurso básico da hipnose. Não vá espalhando por aí que nosso amor é eterno e puro, que vivemos de brisa e de bondade ou que estamos semeando um mundo para a oitava geração depois da nossa: não se deve perturbar assim o sono de tanta gente. Qualquer verdade, bebê, em tempos tão confusos como os nossos, só deve ser passada adiante no mercado negro, dentro dos queijos ou dos tubos de pasta de dente. Até que um dia, às sete da manhã, depois de ver a própria cara sem brilho e amassada no espelho, um joão-ninguém vai reparar no despertar dos filhos e exclamar: "Não é que é mesmo!?"... e nossa última revolução será feita de pequenas implosões, não do contrário. Porque o mundo, bebê, o mundo real e esquecido é feito desses joão-ninguéns – de sua ternura contida, da esperança guardada, do encantamento abafado diante da beleza que persiste. Mas também não tenha pressa, meu bebê: nenhum trabalho importante é para ontem. Temos ainda muito tempo. Descanse em minha casa por enquanto, beba um chá, aceite um pedacinho deste queijo. Mastigue devagar e com prazer. Antes, e acima de tudo, não deixe que te vendam o seu medo – crescer demora, meu bebê, e o mundo desabar seria só o começo.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Não foi
Mas se anunciou com todas as letras em neon: felicidade, ou qualquer coisa assim – e se parecia mesmo à estrela cadente que uma vez atravessou o meu Natal, há muito tempo, quando eu apenas conhecia o mundo. Delicadamente azul; ligeira e de um fascínio absoluto. Fiz um pedido. Nada atendeu. Faltou o chão na hora do passo, a mão, o bolso, a chave de uma porta súbita. – Este menino não se acostumou ainda, vejam só, a ter o que era muito mais do que esperança, a ter certeza, a ser guiado por essa certeza luminosa e de repente estar em queda livre, só, no mais absurdo escuro, confuso, tonto, sem saber – que foi que aconteceu, meu Deus?! Ah, mas este menino que não cresce nunca... Eu tinha era vontade de escrever e de chorar, e de escrever chorando, e de chorar em cada palavra que escrevia; queria morrer, queria não ser, queria passar. Nada passou. A gente se acostuma a não ter sido. Sorri. E o gosto do sorriso é quase bom.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Definição
Menos que nada é quando o nada exagera. É um sobrepeso de nada, um nada que não se pode carregar sozinho. É quando o nada extrapola os limites do que é nada e ocupa espaços do que deveria ser alguma coisa, ou simplesmente fica ali impedindo que outra coisa seja mais que nada no lugar onde ele está. Menos que nada é um buraco negro no vazio do peito. É um aspirador ligado no meio do vácuo. É um nada consumindo o absolutamente nada.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Além das cordilheiras
Valquíria estava parada à porta com lágrimas nos olhos. Eu contemplava pela última vez a vasta planície de vegetação dourada que era preciso abandonar – o meu lugar sagrado, meu lar, minha colheita de sonhos. Sete pares de cavalos pastavam perto da pequena casa de madeira, exceto por Netuno, meu companheiro mais leal, que se mantinha imóvel ao meu lado como já soubesse que eu não estaria ali por muito tempo. Corri meus dedos por seu pelo branco e luminoso; um vento leve, ao mesmo tempo, agitou as folhas de eucaliptos que margeavam a estradinha de terra. Era a última chamada à minha partida. Valquíria desceu correndo os degraus da varanda para um novo abraço, enquanto Netuno disparava como um raio rumo às cordilheiras distantes. Valquíria tomou meu rosto entre as mãos: eu sorria, mas nada era capaz de desmentir o coração doído. Beijei-a. Meus braços envolveram sua cintura pela última vez.
– Me espera? – ela perguntou sem voz.
– Nem sei partir – eu disse.
Beijamo-nos. Os lábios de Valquíria tinham gosto de pêssego, de lágrimas, de uma união indissolúvel.
Quando eu viesse ao mundo, já nem me lembraria mais daquele gosto. Mas seria sempre alguma coisa assim como um vazio constante no meio da alma.
– Me espera? – ela perguntou sem voz.
– Nem sei partir – eu disse.
Beijamo-nos. Os lábios de Valquíria tinham gosto de pêssego, de lágrimas, de uma união indissolúvel.
Quando eu viesse ao mundo, já nem me lembraria mais daquele gosto. Mas seria sempre alguma coisa assim como um vazio constante no meio da alma.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Entre lírios
Não gosto mais do que você dessa distância entre nós dois, Luana. Tenho certeza de que não foi isso que eu disse na outra carta. Os dias são serenos, sim, depois de tanto tempo longe; consigo amar de novo, rir de coisas bobas, chorar com um filme na TV. E ontem fiz um novo amigo. Um menino de uns dez anos que mora na casa ao lado. Ele me ajudou a carregar umas caixas para cima, depois ficou comigo conversando um pouco: ele gosta de batata frita, de chocolate branco e de Harry Potter; disse que passa muito tempo sozinho em casa, que quase não há meninos na vizinhança e que por isso ele vai voltar um dia desses com um jogo qualquer de tabuleiro. Gostaria que você estivesse aqui, Luana. Penso nisso todos os dias. A toda hora. Em cada letra. Na segunda-feira fui sozinho até o desfiladeiro, deviam ser umas duas da madrugada. Fiquei deitado vendo estrelas. Foi bonito. Fazia muito tempo que eu não via o céu assim tão limpo. Então eu acho que peguei no sono; sonhei com chuvas de verão, um grupo de alunos muito concentrados e o galope distante de um cavalo branco. Sei que uma hora falei “eu te amo” – você me ouvia?... O meu trabalho continua o mesmo. As mesmas caras, a má vontade de sempre, e papéis, e tinta, e nada. Mas quase já tenho dinheiro para comprar o meu piano. E sim, faço poemas. Não sei, Luana, por que foi preciso que você quase me odiasse. Que eu viesse embora; que não fosse mais do que memória a vida iluminada e sólida que tivemos no vale de Campomanso, entre lírios, repetindo aquelas promessas para tanto tempo. Mas vou voltar, um dia. Não faz sentido que eu não volte. E eu sei – por mais que você insista em me dizer que a vida segue em frente, que é até bom que eu possa te esquecer aos poucos, que não somos um do outro, que não foi nada mais que um sonho muito breve – eu sei, de toda a minha alma eu sei, ficaremos bem, e ficaremos juntos. Porque eu te amo desde sempre. Porque o teu nome tem gosto de pêssego. E porque mesmo aqui, tão longe, eu sinto a tua presença real e de repente uma certeza antiga de que nada mais me falta.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Ver coisas novas
Estive à tarde em conversa com Alberto Caeiro. Ele estava lá nem um pouco entediado com a Eternidade, exceto por não ter escrito, e perguntava se eu não estaria disposto a transcrever-lhe uns versos. Mas ele era muito outro de ter visto coisas novas, e de falar a mim. Pedi que ele esperasse o meu tempo – que eu vivo no tempo, ainda – e que ele ao menos assinasse os seus escritos com um novo nome, se eu acaso os aceitasse. Ele viu muita graça nessa coisa de assinar com outro nome. Mas concordou, enfim. Disse que não era o nome que o fazia ser Caeiro – “como as pedras”, acrescentou, “não deixariam de ser pedras se as chamássemos de pássaros”. E havia estranhamente algum sentido oculto em suas palavras; no seu rosto, um sorriso calmo de ter visto coisas novas e preparar a grandeza de dizê-las. Como se na Eternidade, apesar de pedras, as pedras muito à sua maneira levantassem voo.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
O inevitável
– Está vendo aquela casa lá? – eu perguntei. Estávamos no alto da montanha, ele de passagem, eu em uma conturbada guerra interior. Eu mal conseguia erguer a mão para apontar; ele, por outro lado, estava cheio de energia e excitação: nem teria parado se a minha voz não estivesse tão fraca ao pedir-lhe um gole d’água. Ele se virou para olhar na direção em que apontei. Uma casinha branca, no alto de uma colina distante, expelia uma fumaça igualmente branca pela chaminé. O homem fez que sim com a cabeça e esperou. Eu continuei: – Serei muito bem recebido ali por sete pessoas que nunca antes tinham me visto. Em alguns dias, estarei sendo tratado como um membro da família; e, pouco tempo depois, é o que de fato eu vou ser. Vou me apaixonar perdidamente por Gabriela, a filha mais velha do casal, e depois de um ano e meio vamos nos mudar, como marido e mulher, para outra casa que terei construído em algum lugar aqui por perto.
O homem recebeu de volta o seu cantil com os olhos arregalados fixos em mim. Abriu a boca para falar, mas não encontrou as palavras. Franziu a testa e esperou outra vez, como se a sua pergunta já estivesse clara o suficiente para mim.
– Sim – eu disse. – Saí de casa há doze anos, exatamente como você, em busca de aventuras. Mas nem de longe vivi tudo o que eu estava pensando que ia viver...
Fiquei em silêncio. O homem olhou mais uma vez para a casa distante, e depois de volta para mim, ainda sem entender. Era óbvio que ele estava movido pelo mesmo impulso que eu tive, havia doze anos, e que simplesmente não conseguia imaginar-se chegando ao ponto em que eu estava. Preferiu não pensar no assunto, agitando a cabeça levemente e voltando sua atenção para o cantil. Fechou-o, sem pressa; guardou-o de volta na mochila. Quando começou a se afastar, sentei-me em uma pedra e olhei para lugar nenhum. Ele se deteve apenas alguns passos adiante.
– E você vai simplesmente... desistir?! – perguntou.
Eu sorri.
– Estou sentado nesta pedra há onze meses.
O homem recebeu de volta o seu cantil com os olhos arregalados fixos em mim. Abriu a boca para falar, mas não encontrou as palavras. Franziu a testa e esperou outra vez, como se a sua pergunta já estivesse clara o suficiente para mim.
– Sim – eu disse. – Saí de casa há doze anos, exatamente como você, em busca de aventuras. Mas nem de longe vivi tudo o que eu estava pensando que ia viver...
Fiquei em silêncio. O homem olhou mais uma vez para a casa distante, e depois de volta para mim, ainda sem entender. Era óbvio que ele estava movido pelo mesmo impulso que eu tive, havia doze anos, e que simplesmente não conseguia imaginar-se chegando ao ponto em que eu estava. Preferiu não pensar no assunto, agitando a cabeça levemente e voltando sua atenção para o cantil. Fechou-o, sem pressa; guardou-o de volta na mochila. Quando começou a se afastar, sentei-me em uma pedra e olhei para lugar nenhum. Ele se deteve apenas alguns passos adiante.
– E você vai simplesmente... desistir?! – perguntou.
Eu sorri.
– Estou sentado nesta pedra há onze meses.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
O acidente
Tentando ter sobrevivido ao último colapso.
Vida é um negócio tenso.
Logo terei renascido e serei muito outro. Até tem graça. Meu coração de terra fixa e ascendente em água fixa talvez até gostasse de ser sempre o mesmo, mas não deu, não foi, a caravana avança. Mas como eu tenho pena de mim mesmo aqui pequenininho, ferido, confuso, etc! Deveriam fazer uns manuais emocionais individualizados, nada de genéricos. Sim, estou envelhecendo na lista de espera. Aí vem um tsunami vez ou outra, um Katrina, um Vesúvio, uma hecatombe. E pôxa vida, Deus, eu não sou Deus nem nada. A gente fica assim no meio dos destroços, imaginando se encontrar a caixa preta serviria para alguma coisa. Por que que as almas não têm pronto-socorro? Falar. Falar. Falar ocupa os pensamentos. E a gente sente menos – quase não sente, quase não sente – até que chegue o dia em que a gente aprenda a rir de como alguém no mundo pode ser tão bobo. Mas nada disso – nada de promessas por enquanto. Às vezes é preciso uma catarse a seco. Amar por implosão. Morrer o que ainda presta. E esperar, e esperar, e esperar.
Ressurreição é coisa de domingo.
Vida é um negócio tenso.
Logo terei renascido e serei muito outro. Até tem graça. Meu coração de terra fixa e ascendente em água fixa talvez até gostasse de ser sempre o mesmo, mas não deu, não foi, a caravana avança. Mas como eu tenho pena de mim mesmo aqui pequenininho, ferido, confuso, etc! Deveriam fazer uns manuais emocionais individualizados, nada de genéricos. Sim, estou envelhecendo na lista de espera. Aí vem um tsunami vez ou outra, um Katrina, um Vesúvio, uma hecatombe. E pôxa vida, Deus, eu não sou Deus nem nada. A gente fica assim no meio dos destroços, imaginando se encontrar a caixa preta serviria para alguma coisa. Por que que as almas não têm pronto-socorro? Falar. Falar. Falar ocupa os pensamentos. E a gente sente menos – quase não sente, quase não sente – até que chegue o dia em que a gente aprenda a rir de como alguém no mundo pode ser tão bobo. Mas nada disso – nada de promessas por enquanto. Às vezes é preciso uma catarse a seco. Amar por implosão. Morrer o que ainda presta. E esperar, e esperar, e esperar.
Ressurreição é coisa de domingo.
domingo, 7 de junho de 2009
Proposta de um primeiro encontro
Começaremos bem. Assim. Você confessa que é dissimulada. Cínica. E sempre se deu muito bem nas manipulações sutis. Você ganhou um ponto. Ou dois. Por ter reconhecido que eu não sou tão cego. E aí confesso eu. Que vou usar você pra alimentar minha vaidade. Testar limites. Jogar na cara da mulher a menininha acuada. E dessa vez sou eu que ganho um ponto. Ou dois. Por não te achar assim tão burra. E só depois é que começa o jogo. Um jogo limpo. Talvez não passe do primeiro tempo. Talvez eu não me importe de rachar o prêmio.
terça-feira, 2 de junho de 2009
Muito mundo
À luz vadia de uma manhã de nuvens cinzas, percorro em pensamento o centro da metrópole que já chamei de casa. Num quarto distante, na província, cortinas balançando ao vento, deito-me completamente ausente: nesta manhã sou puro ontem; pura imagem projetada, dançando com as sombras sobre as pautas do caderno. Ruazinhas estreitas, céu recortado por concreto e, nas fachadas, nomes, telefones, logos: placas de escritórios que a gente nunca soube realmente pra que servem. Na mesa de um café, eu saboreio o gosto de optar pelo meu gosto em uma taça de café gelado. E de lá, sem pressa, percorro em pensamento as ruas do meu bairro, a muitas quadras de distância. Trilhos de trem, aglomerados de prédios. Nalgum lugar alguém pregou o anúncio: Vende-se este mercadinho. Parece coisa da província. Ou é. E como eu poderia não me confundir com tantas ruas, tantas letras, tantas cidades pra um só par de olhos?
sábado, 30 de maio de 2009
Poema de adeus
Diremos que foram belas também as tempestades, e que somente pelo terror de sua beleza nos arrastamos tanto em pensar nelas. Muito mais belos e numerosos, porém, foram os dias de sol sobre a paisagem que se coloria intensamente pelo amor que estendíamos a ela, na embriaguez de nos olharmos antes, um ao outro, com o sorriso acolhedor e amplo da posse consentida. Assim que as minhas mãos têm esta marca; meus lábios, meus olhos, meu peito nu – todo o meu corpo agora solitário expõe a tatuagem de um dia ter provado a materialidade do teu. Obrigado, amor que amei, por ter seguido ao meu lado ao longo do tempo e da terra. Obrigado por ter sido a companheira leal e justa de meu coração crescente, sedenta como eu era de prazer e dor, pelo caminho incerto das contínuas descobertas. Obrigado por guardar comigo a mesma gama de memórias, milagres, pecados e pedras: tudo o que um rio carrega, tudo o que um rio desperta, tudo o que um rio contém e revela para a chuva que o renova.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
sábado, 23 de maio de 2009
O Ator
Tinham combinado que jantariam juntos depois da apresentação, em comemoração ao fim da temporada. Francisco relutou a princípio, alegando que estava ansioso para dar início às suas férias-fora-de-época, mas o restante do elenco tratou de convencê-lo – a peça havia sido um sucesso de público e de crítica; o teatro estaria lotado naquela noite e um caso assim era tão raro para eles que seria uma heresia não comemorar. Francisco sorriu, entregando os pontos. Ser o único solteiro em toda a equipe era um motivo mínimo, infantil até, para não estar entre amigos em uma ocasião realmente importante como aquela. E talvez – pensou – se Ana Clara fosse assistir à peça ele pudesse convidá-la; quem sabe, e assim a noite estaria completa. Não voltaria a pensar no assunto. Era preciso concentrar-se em seu trabalho.
O teatro estava mesmo lotado. Mil e duzentas pessoas mergulhadas no mar negro para além da ribalta, reagindo ao menor dos gestos realizados em cena. Francisco desempenhou o seu papel com uma devoção religiosa, convencido a abandonar qualquer emoção ou pensamento que não pertencesse ao personagem. E naquela noite todos os atores contribuíam muito, embriagados que estavam pela paixão por seu trabalho, decididos a se despedir do público em grande estilo. Foi a melhor apresentação que já fizeram. Quando o mar negro se acendeu, as mil e duzentas pessoas se levantaram de uma só vez para um aplauso estrondoso. Era a consagração do artista; o melhor pagamento que eles poderiam ter.
Vertigem. Francisco não podia imaginar contradição maior: nunca em sua vida se sentiu mais só. Corria os olhos por aquelas gentes, à procura desesperada de Ana Clara, sem reconhecer um único rosto. E de repente não ouvia mais. Encontrar Ana Clara era só o que importava – não via nenhum sentido na palavra “sucesso”, não fazia questão de receber um único aplauso pelo que era apenas seu trabalho. Um trabalho como outro qualquer: como fabricar relógios, como carimbar as cartas no correio.
Somente quando as luzes do palco se apagaram e a cortina começou a ser fechada foi que ele avistou Ana Clara, na oitava fila perto da parede. Ela estava acompanhada por um grupo de amigos, e obviamente se preparava para deixar o teatro. Ela não iria vê-lo, no camarim. Não falaria com ele. Num impulso, Francisco se lançou ao corredor, pensando que seria fácil alcançá-la antes que ela chegasse à porta. Mas foi uma odisséia. A cada passo, alguém o detinha para lhe dar os parabéns pelo “excelente”, “impressionante”, “maravilhoso espetáculo”. Francisco se demorava o mínimo possível: devia soar arrogante e ingrato, mas não havia tempo nem motivos para se preocupar com sua imagem. Ana Clara estava quase saindo. Estava na porta quando ele, espremido entre um casal de velhos, conseguiu estender o braço e tocar em sua mão. Ela se virou, encontrou seus olhos. Sorriu.
Ele era um adolescente bobo e apaixonado. Tudo em volta desapareceu, e só o que havia no mundo era o sorriso iluminado de Ana Clara. Ele sorriu também, como um menino tímido. “Vamos sair para jantar”, disse, imaginando que o convite estaria implícito. Não conseguia pensar em nada melhor para dizer. Estava ocupado demais em se sentir fora do tempo.
– Onde? – ela perguntou.
Um outro rosto surgiu em seu lugar. Um completo estranho, com um brilho emocionado nos olhos, agitava a mão de Francisco e repetia que nunca em sua vida, nunca em sua vida ele tinha visto uma peça tão bonita. Francisco demorou demais para desfazer o sorriso. O mar de gente, os amigos de Ana Clara terminaram de arrastá-la para fora do teatro.
O teatro estava mesmo lotado. Mil e duzentas pessoas mergulhadas no mar negro para além da ribalta, reagindo ao menor dos gestos realizados em cena. Francisco desempenhou o seu papel com uma devoção religiosa, convencido a abandonar qualquer emoção ou pensamento que não pertencesse ao personagem. E naquela noite todos os atores contribuíam muito, embriagados que estavam pela paixão por seu trabalho, decididos a se despedir do público em grande estilo. Foi a melhor apresentação que já fizeram. Quando o mar negro se acendeu, as mil e duzentas pessoas se levantaram de uma só vez para um aplauso estrondoso. Era a consagração do artista; o melhor pagamento que eles poderiam ter.
Vertigem. Francisco não podia imaginar contradição maior: nunca em sua vida se sentiu mais só. Corria os olhos por aquelas gentes, à procura desesperada de Ana Clara, sem reconhecer um único rosto. E de repente não ouvia mais. Encontrar Ana Clara era só o que importava – não via nenhum sentido na palavra “sucesso”, não fazia questão de receber um único aplauso pelo que era apenas seu trabalho. Um trabalho como outro qualquer: como fabricar relógios, como carimbar as cartas no correio.
Somente quando as luzes do palco se apagaram e a cortina começou a ser fechada foi que ele avistou Ana Clara, na oitava fila perto da parede. Ela estava acompanhada por um grupo de amigos, e obviamente se preparava para deixar o teatro. Ela não iria vê-lo, no camarim. Não falaria com ele. Num impulso, Francisco se lançou ao corredor, pensando que seria fácil alcançá-la antes que ela chegasse à porta. Mas foi uma odisséia. A cada passo, alguém o detinha para lhe dar os parabéns pelo “excelente”, “impressionante”, “maravilhoso espetáculo”. Francisco se demorava o mínimo possível: devia soar arrogante e ingrato, mas não havia tempo nem motivos para se preocupar com sua imagem. Ana Clara estava quase saindo. Estava na porta quando ele, espremido entre um casal de velhos, conseguiu estender o braço e tocar em sua mão. Ela se virou, encontrou seus olhos. Sorriu.
Ele era um adolescente bobo e apaixonado. Tudo em volta desapareceu, e só o que havia no mundo era o sorriso iluminado de Ana Clara. Ele sorriu também, como um menino tímido. “Vamos sair para jantar”, disse, imaginando que o convite estaria implícito. Não conseguia pensar em nada melhor para dizer. Estava ocupado demais em se sentir fora do tempo.
– Onde? – ela perguntou.
Um outro rosto surgiu em seu lugar. Um completo estranho, com um brilho emocionado nos olhos, agitava a mão de Francisco e repetia que nunca em sua vida, nunca em sua vida ele tinha visto uma peça tão bonita. Francisco demorou demais para desfazer o sorriso. O mar de gente, os amigos de Ana Clara terminaram de arrastá-la para fora do teatro.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
O Poeta
Aquele menino nasceu com um defeito no cérebro – não, com poderes sobrenaturais – não, ele sofreu um trauma na infância – não, ele escrevia poemas, e por volta dos onze anos ele descobriu que – não, ele já passava dos vinte – descobriu que podia enxergar o inferno dos outros – não, ele decodificava os ambientes emocionais à sua volta – não, ele era um retraído incurável – não, ele podia ler pensamentos e prever o futuro – não, ele era só sensível demais e começou a perder a sanidade porque – não, na verdade ele achava tudo muito divertido, mas estava meio cansado de ouvir que talvez fosse melhor para ele procurar um psicólogo – não, um pai de santo – não, a bíblia – não, ele era índigo e tudo se explicava – estava cansado de ouvir demais quando ninguém estava realmente preocupado em entender – não, em ser um pouco mais parecido com ele – não, em deixá-lo viver a própria vida em paz – não, em explicar de que forma ele estava sendo mesquinho e egoísta – não, em parar para ouvir o que ele sabia muito bem – não, ninguém estava preocupado em parar para ouvir o que ele pensava sobre o amor e todas essas coisas que podem salvar o mundo – não, que só servem para fazer poemas – não, sobre as coisas que realmente importam, porque ele acreditava em sua cabecinha de menino – não, de fracassado – não, ele sentia em seu coração de poeta que alguma coisa estava muito errada – não, que o mundo ia acabar em 2012 – não, que usar palavras como amor e liberdade fora de outdoors não deveria ser considerado escapismo, e ele queria mudar os conceitos das coisas – não, ele queria se matar – não, ele queria ajudar enquanto era tempo – não, ele queria se matar – não, ele só queria ver a vida de outra forma – nem sempre ele queria se matar – o que ele mais queria era escrever a frase perfeita, a frase mais bonita que alguém já escreveu, a frase que ficaria na cabeça de todos pelo resto da vida para que eles se lembrassem do que realmente importa – não, não importa, mas ele queria mesmo escrever uma frase bonita – não, ele queria que nada mais precisasse ser dito – não, ele queria apenas descobrir se alguém era capaz de enxergar a mesma beleza que ele neste mundo já saturado de frases tortas.
domingo, 17 de maio de 2009
O Professor
Agradeço pela lição de hoje, mas sou eu quem não quer aprender a ter acessos de fúria. E honestamente não me importa quem você elegeu pra ser o grande responsável pelos seus fracassos: mais cedo ou mais tarde os caminhos apontarão pra dentro. É preciso crescer muitas vezes pra entender que a brincadeira não termina, e que ainda é tudo variação de ser ou não dono da bola, de estar ou não à frente no placar, de concordar ou não com as regras em um jogo sem juiz. E no final das contas, o que nos resta é simplesmente o fato de que estamos juntos, sem saber quem ensina a quem. Numa tarde eterna de domingo, sob o sol no campinho do bairro.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Instante
É a força de estar vivo que se espalha por meu sangue sempre que a palma da sua mão se encosta à palma da minha mão, seus dedos percorrendo os vãos entre meus dedos, e olhamos para longe como se estivéssemos ainda sós em mundos separados, mas tão próximos, tão iguais na superfície lisa da sua pele onde ela encontra a minha, como um par de espelhos voltados um para o outro, camadas sobrepostas de uma mesma tinta, irmãos siameses por escolha própria, e eu tenho essa impressão de que conheço a história da sua vida desde o tempo em que a maior felicidade que você podia sentir guardava-se entre os pelos de um tapete branco onde você rolava à noite, no vazio da sala, e sinto a liberdade que você foi conhecer quando soltou as mãos pela primeira vez descendo o morro em uma bicicleta azul-turqueza, e vejo com seus olhos o voraz fascínio que acendia os olhos do menino a quem você entregou o seu primeiro beijo e a vertigem da primeira noite em que se viu despida diante da nudez de um homem, e reconheço as marcas do cansaço que você sentiu nos longos anos em que procurou repouso em corações fechados, até que finalmente a vida se lembrou de ter-me feito só para o momento em que tropeçaríamos um no outro em uma loja de conveniências, ou desprendidos de qualquer noção de tempo entre as ruínas de uma civilização extinta na América Central, justificando enfim nossa presença neste mundo em que aprendemos a beber o fogo desde o coração do sol, na extremidade de um dos braços da galáxia, no universo que há na ponta dos seus dedos que afinal se fecham como um polvo sobre as costas da minha mão.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Sobre a melancolia
Quando você estiver em minha casa, leve de lá um poema do Vinícius que se chama Ausência; minhas anotações sobre Penélope; todas as músicas do Clube da Esquina. Em uma das gavetas do escritório, você vai encontrar o meu caderno de segredos revelados – amores eternos, um medo sem fim de viver – que eu gostaria que você queimasse sem pensar em ler. Uma caixinha de música na cômoda do quarto, presente muito antigo, não deve nunca mais tocar seu Pour Elise: leve um martelo. Quando você estiver em minha casa, não deixe o seu perfume em cada cômodo para eu sentir mais tarde; abra as cortinas contra o escuro; tire do vaso as flores muito secas. Na lavanderia, há sacos de lixo pretos: coloque neles minha boa memória, minha paciência para a espera, meu fascínio bobo pelas coisas que não posso ter. E, se couber ainda, leve também os fins de tarde, as noites de chuva, e sobretudo o riso interminável dos vizinhos. Não sei como me desfazer de tantas coisas. Preciso acreditar que elas jamais me pertenceram.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Como escrever seu próprio manual de sobrevivência
1. Comece registrando fatos sem nenhuma importância, por exemplo: "Hoje um inseto morreu no meu copo de suco".
2. Altere o sentido de algumas frases, de modo que elas acabem parecendo um pouco inusitadas. Um exemplo simples: onde você escreveu "Fui passear em uma estrada cheia de hortências", escreva "Passei o dia tentando acompanhar as hortências, mas elas sempre iam para o outro lado".
3. Escute músicas de amor, de preferência as de um amor que deu certo. Não é preciso estar apaixonado: apenas cante junto e finja que está. Faça uma lista das suas preferidas e atualize quinzenalmente.
4. Faça uma lista dos melhores momentos da sua vida. Demore-se bastante em cada um, procurando identificar as sensações que eles despertam. Lembre-se de que viver o presente não tem nada a ver com não regar flores de ontem.
5. Não deixe o seu manual se viciar em um estilo. Quando achar que a ternura está virando melancolia, que as imagens vão ficando exageradamente coloridas ou que as declarações de amor começam a implicar com os defeitos do outro, tente escrever sobre alguma coisa que nunca antes havia passado pela sua cabeça.
6. Mas também não se vicie em evitar os vícios.
7. Prefira os lápis – mas nunca, em hipótese alguma tenha medo de se arrepender daquilo que escreveu. Para este caso, sugiro acrescentar ao seu manual o subtítulo: Ao contrário do que se imagina, sobreviver exige uma boa dose de fraquezas.
2. Altere o sentido de algumas frases, de modo que elas acabem parecendo um pouco inusitadas. Um exemplo simples: onde você escreveu "Fui passear em uma estrada cheia de hortências", escreva "Passei o dia tentando acompanhar as hortências, mas elas sempre iam para o outro lado".
3. Escute músicas de amor, de preferência as de um amor que deu certo. Não é preciso estar apaixonado: apenas cante junto e finja que está. Faça uma lista das suas preferidas e atualize quinzenalmente.
4. Faça uma lista dos melhores momentos da sua vida. Demore-se bastante em cada um, procurando identificar as sensações que eles despertam. Lembre-se de que viver o presente não tem nada a ver com não regar flores de ontem.
5. Não deixe o seu manual se viciar em um estilo. Quando achar que a ternura está virando melancolia, que as imagens vão ficando exageradamente coloridas ou que as declarações de amor começam a implicar com os defeitos do outro, tente escrever sobre alguma coisa que nunca antes havia passado pela sua cabeça.
6. Mas também não se vicie em evitar os vícios.
7. Prefira os lápis – mas nunca, em hipótese alguma tenha medo de se arrepender daquilo que escreveu. Para este caso, sugiro acrescentar ao seu manual o subtítulo: Ao contrário do que se imagina, sobreviver exige uma boa dose de fraquezas.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Claro
Coração transparente, felicidade iluminada ao som das águas – brincar como criança à beira da cascata; rolar na grama entre formigas, cócegas, risada que se solta e vai pousar num galho alto ouvir notícias sobre o azul; abrigo e segurança desse estar presente e ter visitas: planos aéreos pra daqui a dois anos, a sensação ligeira de uma encarnação anterior; diamante ao sol; brilho dos olhos; a vida se descobre alegre e leve e doce porque toda angústia, todos os medos, tudo que fere ou perde recebeu enfim de todos os tarôs, todos os búzios, todas as linhas da tua mão a mesma e única resposta: Bem mais simples.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Crônica de um segredo que não me pertence
Raios de luz, cristais de muitas cores ocupam numa dimensão desconhecida o mesmo espaço em que eu, subitamente esquecido de tudo, enxergo apenas os teus pés voando escada abaixo em direção a mim. A concretude do teu corpo em roupas coloridas, teu cabelo solto, os braços e sorriso abertos vão curvando o espaço à tua volta na medida exata de um retrato; tudo é sólido e real, mas numa intensidade nova e infinitamente superior. Mas ainda assim, quanto mais próximo de ti menos compreendo essa realidade do mundo: para mim não somos mais do que dois personagens mergulhados em névoa, completamente imóveis um em frente ao outro, olhos nos olhos, sem compreender como é possível não estarmos juntos numa só matéria. E finalmente então, sem nada receber de ti além da breve sensação de um toque, percebo a minha pele dissolvendo em fogo as próprias cicatrizes, rugas, marcas – tudo o que nasceu do tempo; sou jovem outra vez e nada me ameaça: meu coração transborda lentamente a sua fonte oculta de imortalidade.
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