sábado, 30 de maio de 2009

Poema de adeus

Diremos que foram belas também as tempestades, e que somente pelo terror de sua beleza nos arrastamos tanto em pensar nelas. Muito mais belos e numerosos, porém, foram os dias de sol sobre a paisagem que se coloria intensamente pelo amor que estendíamos a ela, na embriaguez de nos olharmos antes, um ao outro, com o sorriso acolhedor e amplo da posse consentida. Assim que as minhas mãos têm esta marca; meus lábios, meus olhos, meu peito nu – todo o meu corpo agora solitário expõe a tatuagem de um dia ter provado a materialidade do teu. Obrigado, amor que amei, por ter seguido ao meu lado ao longo do tempo e da terra. Obrigado por ter sido a companheira leal e justa de meu coração crescente, sedenta como eu era de prazer e dor, pelo caminho incerto das contínuas descobertas. Obrigado por guardar comigo a mesma gama de memórias, milagres, pecados e pedras: tudo o que um rio carrega, tudo o que um rio desperta, tudo o que um rio contém e revela para a chuva que o renova.

sábado, 23 de maio de 2009

O Ator

Tinham combinado que jantariam juntos depois da apresentação, em comemoração ao fim da temporada. Francisco relutou a princípio, alegando que estava ansioso para dar início às suas férias-fora-de-época, mas o restante do elenco tratou de convencê-lo – a peça havia sido um sucesso de público e de crítica; o teatro estaria lotado naquela noite e um caso assim era tão raro para eles que seria uma heresia não comemorar. Francisco sorriu, entregando os pontos. Ser o único solteiro em toda a equipe era um motivo mínimo, infantil até, para não estar entre amigos em uma ocasião realmente importante como aquela. E talvez – pensou – se Ana Clara fosse assistir à peça ele pudesse convidá-la; quem sabe, e assim a noite estaria completa. Não voltaria a pensar no assunto. Era preciso concentrar-se em seu trabalho.

O teatro estava mesmo lotado. Mil e duzentas pessoas mergulhadas no mar negro para além da ribalta, reagindo ao menor dos gestos realizados em cena. Francisco desempenhou o seu papel com uma devoção religiosa, convencido a abandonar qualquer emoção ou pensamento que não pertencesse ao personagem. E naquela noite todos os atores contribuíam muito, embriagados que estavam pela paixão por seu trabalho, decididos a se despedir do público em grande estilo. Foi a melhor apresentação que já fizeram. Quando o mar negro se acendeu, as mil e duzentas pessoas se levantaram de uma só vez para um aplauso estrondoso. Era a consagração do artista; o melhor pagamento que eles poderiam ter.

Vertigem. Francisco não podia imaginar contradição maior: nunca em sua vida se sentiu mais só. Corria os olhos por aquelas gentes, à procura desesperada de Ana Clara, sem reconhecer um único rosto. E de repente não ouvia mais. Encontrar Ana Clara era só o que importava – não via nenhum sentido na palavra “sucesso”, não fazia questão de receber um único aplauso pelo que era apenas seu trabalho. Um trabalho como outro qualquer: como fabricar relógios, como carimbar as cartas no correio.

Somente quando as luzes do palco se apagaram e a cortina começou a ser fechada foi que ele avistou Ana Clara, na oitava fila perto da parede. Ela estava acompanhada por um grupo de amigos, e obviamente se preparava para deixar o teatro. Ela não iria vê-lo, no camarim. Não falaria com ele. Num impulso, Francisco se lançou ao corredor, pensando que seria fácil alcançá-la antes que ela chegasse à porta. Mas foi uma odisséia. A cada passo, alguém o detinha para lhe dar os parabéns pelo “excelente”, “impressionante”, “maravilhoso espetáculo”. Francisco se demorava o mínimo possível: devia soar arrogante e ingrato, mas não havia tempo nem motivos para se preocupar com sua imagem. Ana Clara estava quase saindo. Estava na porta quando ele, espremido entre um casal de velhos, conseguiu estender o braço e tocar em sua mão. Ela se virou, encontrou seus olhos. Sorriu.

Ele era um adolescente bobo e apaixonado. Tudo em volta desapareceu, e só o que havia no mundo era o sorriso iluminado de Ana Clara. Ele sorriu também, como um menino tímido. “Vamos sair para jantar”, disse, imaginando que o convite estaria implícito. Não conseguia pensar em nada melhor para dizer. Estava ocupado demais em se sentir fora do tempo.

– Onde? – ela perguntou.

Um outro rosto surgiu em seu lugar. Um completo estranho, com um brilho emocionado nos olhos, agitava a mão de Francisco e repetia que nunca em sua vida, nunca em sua vida ele tinha visto uma peça tão bonita. Francisco demorou demais para desfazer o sorriso. O mar de gente, os amigos de Ana Clara terminaram de arrastá-la para fora do teatro.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O Poeta

Aquele menino nasceu com um defeito no cérebro – não, com poderes sobrenaturais – não, ele sofreu um trauma na infância – não, ele escrevia poemas, e por volta dos onze anos ele descobriu que – não, ele já passava dos vinte – descobriu que podia enxergar o inferno dos outros – não, ele decodificava os ambientes emocionais à sua volta – não, ele era um retraído incurável – não, ele podia ler pensamentos e prever o futuro – não, ele era só sensível demais e começou a perder a sanidade porque – não, na verdade ele achava tudo muito divertido, mas estava meio cansado de ouvir que talvez fosse melhor para ele procurar um psicólogo – não, um pai de santo – não, a bíblia – não, ele era índigo e tudo se explicava – estava cansado de ouvir demais quando ninguém estava realmente preocupado em entender – não, em ser um pouco mais parecido com ele – não, em deixá-lo viver a própria vida em paz – não, em explicar de que forma ele estava sendo mesquinho e egoísta – não, em parar para ouvir o que ele sabia muito bem – não, ninguém estava preocupado em parar para ouvir o que ele pensava sobre o amor e todas essas coisas que podem salvar o mundo – não, que só servem para fazer poemas – não, sobre as coisas que realmente importam, porque ele acreditava em sua cabecinha de menino – não, de fracassado – não, ele sentia em seu coração de poeta que alguma coisa estava muito errada – não, que o mundo ia acabar em 2012 – não, que usar palavras como amor e liberdade fora de outdoors não deveria ser considerado escapismo, e ele queria mudar os conceitos das coisas – não, ele queria se matar – não, ele queria ajudar enquanto era tempo – não, ele queria se matar – não, ele só queria ver a vida de outra forma – nem sempre ele queria se matar – o que ele mais queria era escrever a frase perfeita, a frase mais bonita que alguém já escreveu, a frase que ficaria na cabeça de todos pelo resto da vida para que eles se lembrassem do que realmente importa – não, não importa, mas ele queria mesmo escrever uma frase bonita – não, ele queria que nada mais precisasse ser dito – não, ele queria apenas descobrir se alguém era capaz de enxergar a mesma beleza que ele neste mundo já saturado de frases tortas.

domingo, 17 de maio de 2009

O Professor

Agradeço pela lição de hoje, mas sou eu quem não quer aprender a ter acessos de fúria. E honestamente não me importa quem você elegeu pra ser o grande responsável pelos seus fracassos: mais cedo ou mais tarde os caminhos apontarão pra dentro. É preciso crescer muitas vezes pra entender que a brincadeira não termina, e que ainda é tudo variação de ser ou não dono da bola, de estar ou não à frente no placar, de concordar ou não com as regras em um jogo sem juiz. E no final das contas, o que nos resta é simplesmente o fato de que estamos juntos, sem saber quem ensina a quem. Numa tarde eterna de domingo, sob o sol no campinho do bairro.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Instante

É a força de estar vivo que se espalha por meu sangue sempre que a palma da sua mão se encosta à palma da minha mão, seus dedos percorrendo os vãos entre meus dedos, e olhamos para longe como se estivéssemos ainda sós em mundos separados, mas tão próximos, tão iguais na superfície lisa da sua pele onde ela encontra a minha, como um par de espelhos voltados um para o outro, camadas sobrepostas de uma mesma tinta, irmãos siameses por escolha própria, e eu tenho essa impressão de que conheço a história da sua vida desde o tempo em que a maior felicidade que você podia sentir guardava-se entre os pelos de um tapete branco onde você rolava à noite, no vazio da sala, e sinto a liberdade que você foi conhecer quando soltou as mãos pela primeira vez descendo o morro em uma bicicleta azul-turqueza, e vejo com seus olhos o voraz fascínio que acendia os olhos do menino a quem você entregou o seu primeiro beijo e a vertigem da primeira noite em que se viu despida diante da nudez de um homem, e reconheço as marcas do cansaço que você sentiu nos longos anos em que procurou repouso em corações fechados, até que finalmente a vida se lembrou de ter-me feito só para o momento em que tropeçaríamos um no outro em uma loja de conveniências, ou desprendidos de qualquer noção de tempo entre as ruínas de uma civilização extinta na América Central, justificando enfim nossa presença neste mundo em que aprendemos a beber o fogo desde o coração do sol, na extremidade de um dos braços da galáxia, no universo que há na ponta dos seus dedos que afinal se fecham como um polvo sobre as costas da minha mão.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Sobre a melancolia

Quando você estiver em minha casa, leve de lá um poema do Vinícius que se chama Ausência; minhas anotações sobre Penélope; todas as músicas do Clube da Esquina. Em uma das gavetas do escritório, você vai encontrar o meu caderno de segredos revelados – amores eternos, um medo sem fim de viver – que eu gostaria que você queimasse sem pensar em ler. Uma caixinha de música na cômoda do quarto, presente muito antigo, não deve nunca mais tocar seu Pour Elise: leve um martelo. Quando você estiver em minha casa, não deixe o seu perfume em cada cômodo para eu sentir mais tarde; abra as cortinas contra o escuro; tire do vaso as flores muito secas. Na lavanderia, há sacos de lixo pretos: coloque neles minha boa memória, minha paciência para a espera, meu fascínio bobo pelas coisas que não posso ter. E, se couber ainda, leve também os fins de tarde, as noites de chuva, e sobretudo o riso interminável dos vizinhos. Não sei como me desfazer de tantas coisas. Preciso acreditar que elas jamais me pertenceram.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Como escrever seu próprio manual de sobrevivência

1. Comece registrando fatos sem nenhuma importância, por exemplo: "Hoje um inseto morreu no meu copo de suco".

2. Altere o sentido de algumas frases, de modo que elas acabem parecendo um pouco inusitadas. Um exemplo simples: onde você escreveu "Fui passear em uma estrada cheia de hortências", escreva "Passei o dia tentando acompanhar as hortências, mas elas sempre iam para o outro lado".

3. Escute músicas de amor, de preferência as de um amor que deu certo. Não é preciso estar apaixonado: apenas cante junto e finja que está. Faça uma lista das suas preferidas e atualize quinzenalmente.

4. Faça uma lista dos melhores momentos da sua vida. Demore-se bastante em cada um, procurando identificar as sensações que eles despertam. Lembre-se de que viver o presente não tem nada a ver com não regar flores de ontem.

5. Não deixe o seu manual se viciar em um estilo. Quando achar que a ternura está virando melancolia, que as imagens vão ficando exageradamente coloridas ou que as declarações de amor começam a implicar com os defeitos do outro, tente escrever sobre alguma coisa que nunca antes havia passado pela sua cabeça.

6. Mas também não se vicie em evitar os vícios.

7. Prefira os lápis – mas nunca, em hipótese alguma tenha medo de se arrepender daquilo que escreveu. Para este caso, sugiro acrescentar ao seu manual o subtítulo: Ao contrário do que se imagina, sobreviver exige uma boa dose de fraquezas.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Claro

Coração transparente, felicidade iluminada ao som das águas – brincar como criança à beira da cascata; rolar na grama entre formigas, cócegas, risada que se solta e vai pousar num galho alto ouvir notícias sobre o azul; abrigo e segurança desse estar presente e ter visitas: planos aéreos pra daqui a dois anos, a sensação ligeira de uma encarnação anterior; diamante ao sol; brilho dos olhos; a vida se descobre alegre e leve e doce porque toda angústia, todos os medos, tudo que fere ou perde recebeu enfim de todos os tarôs, todos os búzios, todas as linhas da tua mão a mesma e única resposta: Bem mais simples.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Crônica de um segredo que não me pertence

Raios de luz, cristais de muitas cores ocupam numa dimensão desconhecida o mesmo espaço em que eu, subitamente esquecido de tudo, enxergo apenas os teus pés voando escada abaixo em direção a mim. A concretude do teu corpo em roupas coloridas, teu cabelo solto, os braços e sorriso abertos vão curvando o espaço à tua volta na medida exata de um retrato; tudo é sólido e real, mas numa intensidade nova e infinitamente superior. Mas ainda assim, quanto mais próximo de ti menos compreendo essa realidade do mundo: para mim não somos mais do que dois personagens mergulhados em névoa, completamente imóveis um em frente ao outro, olhos nos olhos, sem compreender como é possível não estarmos juntos numa só matéria. E finalmente então, sem nada receber de ti além da breve sensação de um toque, percebo a minha pele dissolvendo em fogo as próprias cicatrizes, rugas, marcas – tudo o que nasceu do tempo; sou jovem outra vez e nada me ameaça: meu coração transborda lentamente a sua fonte oculta de imortalidade.

sábado, 25 de abril de 2009

Passar

Um a um
caíram meus sonhos.
E eu não estava lá.
Ninguém mais estava.
Lá.

Quem banhasse meus sonhos,
vestisse-os de prata.
Quem os guardasse um a um,
talvez
com o sal da palavra.

E como estar certo, agora,
de que lá onde nem eu estava,
entre os meus sonhos caídos,
nada
mais
pulsava?

domingo, 19 de abril de 2009

Das pequenas surpresas

Só um pouquinho de atenção, bebê, e você descobre que a vida extrai poesia de si mesma. Essa vida confusa, essa vida sombria que levamos por fazer a opção de não entrar no jogo – sem medir a força, sem nenhum aviso prévio nos aplica um golpe ao acender a luz; ao encontrar velhos amigos; ao dobrar a esquina calculando as quadras que ainda faltam. Mas um golpe de beleza, meu bebê, aquilo que outros chamam de golpe de sorte. Só que então pensamos que o presente não é nosso, que não pode ser; que não o merecemos, afinal, de tão acostumados que ficamos a esperar sempre o pior. Porque nos viciamos na acidez da ironia; porque gastamos as palavras pra falar no amor como um efeito especial na tela do cinema. Mas um presente da vida, bebê, não pode ser ignorado, transferido, jogado fora ou devolvido ao remetente. Porque ele vai ficar ali pregado bem no centro da salinha de TV, até que você se canse de estar sempre tropeçando nele – e então perceba, pro seu grande espanto, que ele é mais ou menos a mesma água que você buscava no meio das noites.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Mapa das horas

Canto porque fui como qualquer criança – e era o meu jeito de não escutar o que me incomodava.

Canto porque trago em mim o que a memória não apaga: amor secreto, alto do muro, vento no rosto ao passear de bicicleta.

Canto pra não me esquecer de um tempo em que vaguei com medo, ferido e abandonado – e ao chegar em casa descobria flores no tapete em frente à porta.

E um tempo mágico de anjos e cataventos, de estrelas que caíam no telhado e a gente não sabia o que fazer com elas.

Canto porque tudo segue vivo – e eu canto finalmente pra não me esquecer de agora.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Sob um céu de abril

"Sim, estou apaixonada por você", ela disse. Havia algo de aéreo naquelas palavras, e havia essa poeira que pousava mansamente sobre um assoalho de madeira. Em uma biblioteca simples, no coração de um parque em Curitiba. "Você pode levar o que quiser", ela continuou, depois de longa pausa; "os livros que você emprestou, os quadros que você pintou pra mim. Pode levar aquelas noites todas que eu passei sonhando que você também me amava; as músicas de amor que me lembravam de nós dois; aquele monte de coraçõezinhos bobos que eu tracei com o dedo em vidros embaçados". Seria inútil responder. Nem nos olhávamos: mantínhamos o olhar perdido fora da janela, contemplando o lago, o seu reflexo pálido à luz da manhã. Ela continuava: "Pode levar a minha última esperança de me sentir segura – porque eu acho outra; pode levar a sensação intensa de estar viva que me vem só de escutar teu nome; pode levar essa alegria sólida, concreta, real e ao mesmo tempo mágica, infinita, delicada. Pode levar. Eu acho outra". Não resisti à vontade de vê-la enquanto ela falava tudo aquilo. Por pura crueldade trágica. Eu a amava perdidamente, mas sabia que nossa história não iria adiante: vivíamos em mundos separados. Eternos como Adão e Deus no teto da capela. "Mas uma coisa você nunca vai poder levar", ela dizia enfim. E eu já sabia o que era. Porque era o que eu também diria se não fosse ela quem tivesse começado. "Você nunca vai poder levar uma certeza que eu tive no dia em que viemos aqui juntos pela primeira vez. Você nunca vai poder levar essa lembrança clara do dia mais feliz da minha vida. Você nunca vai poder levar o que ficou em mim: você nunca vai poder levar o que já é você dentro de quem eu sou".

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A terceira noite

Na terceira noite de solidão, as coisas já não eram mais tão divertidas como nas outras duas. Viu-se de repente no centro da sala entre girassóis de plástico, versos de Cecília, porta-retratos vazios, um copo de conhaque, álbuns do Legião Urbana, pratos sujos, um par de meias, controles remotos, almofadas de renda, um violão, um abajur, um lápis, uma teia, o tapete, o cobertor azul, a tela da TV, o tédio e aquela ausência aterradora de outro corpo.

Na terceira noite de solidão, a vida se cansou do fato de poder ser qualquer coisa. Pensou em escrever sua quadragésima carta de suicídio, em telefonar para desconhecidos, em publicar um livro de sonetos, em botar fogo na casa, em alugar um filme, em escalar um paredão de pedra, em atirar ovos em vira-latas, em não tomar um porre, em procurar no orkut a antepenúltima namorada, em adotar uma menina chinesa, em dormir debaixo do chuveiro, em comprar um video-game, em arrumar o quarto, em ficar catatônico, em fazer uma apresentação em Power Point com um texto ruim atribuído a Shakespeare, em seduzir, em se deixar ser reduzido, em inventar o que fosse para não ter que perceber aquela ausência aterradora de apenas outro corpo.

Na terceira noite de solidão, a lógica se diluía por completo. Começou a elaborar um único romance que incluía amnésias induzidas, profecias maias, sofrimentos de um bobo-da-corte, namoros secretos entre adolescentes primos de terceiro grau, doze carnavais, sete viagens no tempo rumo a um único dia, uma cantora de ópera, um pequeno tornado, alusões ao Canto dos Centauros do Inferno de Dante, luta de classes, uma voz incorpórea percebida como "quente e açucarada" por um homem enlouquecido em sua oitava noite de solidão, comentários técnicos sobre a arquitetura dos prédios mais antigos de Buenos Aires, uma rosa, um capítulo inteiro descrevendo os movimentos aleatórios dos peixes em determinado ponto do oceano, astronautas que descobrem que nunca mais poderão voltar à Terra, esportes radicais, instrumentos de tortura, mágoas, mangás e duas xícaras de cappuccino fumegante.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Carta a um companheiro de batalha

Velho amigo;

Ainda pensando em melhorar o mundo, mas não muito atento ao que acontece nele desde que entrei em greve. Pelas condições precárias de trabalho, pelo ambiente insalubre; mas também por causa desse meu acúmulo de funções. Tranquei-me em casa e pendurei um cartaz na porta com os dizeres: "O mundo é dos espertos; eles que se virem" – ok, foi num momento de raiva, agora eu já tirei. Mas estou começando a achar que transformar o mundo é uma capacidade atávica, e estamos justamente naquela geração em que o gene não se manifesta. Será que alguém aí não pode dar uma mãozinha?!... Você sabe que eu tenho essa tendência ao messianismo, e me sentir sozinho não ajuda muito. Começo até a achar bonito as crianças daqui me chamarem de Jesus por causa dos cabelos e da barba que eu não tiro por preguiça (e uma menina da faculdade disse que eu lembro as imagens dele por causa dos olhos tristes!) Também é divertido reparar que da capital para a província eu fui do bairro Cristo Rei para o Menino Deus – veja bem, não é um detalhe delicioso? – mas a verdade é que eu gostaria mesmo de estar ocupado com alguma coisa mais importante do que isso. Não estaria na hora de organizarmos algumas reuniões secretas? Pichar muros, distribuir panfletos, ministrar palestras para os maiores interessados? Tem muita gente por aí pensando que somos do tipo "sem causa": não seria o momento de publicarmos nosso manifesto? Com reivindicações mais claras? "Queremos um mundo melhor", você sabe, caiu em descrédito – já deve ter estado em umas duzentas campanhas publicitárias, e só piora. Pense nisso, por favor. Depois conversamos. Mas não demore muito, sim?, porque daqui a pouco vão estar cobrando e eu realmente não queria ter que dar nenhum sermão na montanha.

Abraços.

domingo, 5 de abril de 2009

Transitória

Deixo você dormindo até mais tarde, saio pra comprar o pão. Em pouco tempo a casa toda vai ter cheiro de café com flores; um sorriso a mais; o amor se espreguiçando no domingo. Bom dia misturado ao riso lá de fora, uma voz pequena repetindo ao pai eu-já-consigo-andar-tudo-isso-sem-rodinhas. Quem foi que teve a ideia de lhe dar uns olhos tão azuis? Eu posso lhe falar do mundo, de tudo que ele teve que passar pra que estivéssemos aqui – esse sentido último. Mas não que eu tenho que mostrar mais uma vez como espalhar manteiga!? (Podemos rir mais alto, pro escândalo completo dos vizinhos.) Eu passaria a vida inteira vendo o sol nas suas pernas. Mas antes do café esfriar, meu bem, experimente um pouco dessa torta; do coração da rosa; daquela nuvem que eu tive que mandar fazer...

quinta-feira, 2 de abril de 2009

De repente uma tristeza adolescente

Visão Noturna do Centro fotografado da Reitoria UFPR
por Adilson Gomes

Seria bom, amiga, se eu conseguisse explicar por que meu coração ficou pequeno de uma hora para a outra; mas só sei que foi assim, e eu tive que dizer licença eu vou comprar um mate ou vou tomar um bonde; até que no fim, desculpa, eu acabei me debruçando na janela e tive que chorar tudo isso enquanto o professor falava. A gente não escolhe, amiga, nem a dor que sente nem a hora de sentir – seria bonito, seria um passeio hippie pelo bosque, disco infantil contendo uma historinha inofensiva para o seu menino, seria um ídolo de ouro com a nossa cara se a vida conseguisse ser menos estúpida e canalha como acaba sendo vez ou outra. Então é tudo uma questão de segurar as rédeas? Então não é num tigre que montamos? Seria bom, amiga, se fosse uma questão de ter vontade ou lucidez. Mas a gente simplesmente não escolhe o amor que sente. A gente não escolhe não encontrar ninguém. A gente não escolhe esse cansaço no final do dia, no alto de um prédio em uma aula de Grego Avançado, e se sentir completamente zonzo e só quando ao olhar pela janela reparamos no cair da noite sobre uma cidade que não tem mais fim...

***

hoje à noite, diz Leminski,
(anote em seu caderno)
hoje à noite
lua alta
faltei
e ninguém sentiu
a minha falta


É bobo, eu sei. Mas por hoje é tão... verdade...

terça-feira, 31 de março de 2009

Luzia

A primeira vez que amei alguém foi aos sete anos de idade. Soube num domingo, num passeio de carro com meus pais pela cidade. Chovia muito. Eu ia sozinho no banco de trás, talvez mal humorado, contemplando em silêncio a chuva na calçada. Foi quando ela surgiu. Luzia. Uma menina da minha sala. Nunca soube o que ela fazia ali, sozinha na chuva, no centro da cidade. Estava encharcada, caminhando devagar. A cabeça baixa, os pés quase descalços arrastando as havaianas.

Passei o resto do dia perturbado. Não consegui comer. Demorei para dormir e tive sonhos incômodos. Para mim era novo. Na manhã seguinte, não sabia mais o que fazer para passar o tempo – já queria estar na escola. Queria vê-la. Queria decifrá-la. E quando finalmente estive lá, sentado em minha cadeira de palha, vendo Luzia concentrada em uma aula de Ciências Sociais, tomei a decisão mais corajosa e ao mesmo tempo natural que poderia ter tomado: fui beijá-la.

Na boca, sem nenhuma pressa.

A sala toda estremeceu. Luzia me olhava com uns olhos muito grandes e, um pouco indelicada, limpava meu beijo com as pontas dos dedos. A professora havia parado de falar: olhava para mim entre furiosa e aturdida – e nada mais no mundo se movia. Eu olhava de uma à outra, sem saber o que fazer também. Estava confuso, oco, profundamente decepcionado.

– Não tem gosto de chuva – murmurei.

Foi um amor muito breve.

sábado, 28 de março de 2009

Sentido

Na contramão do outono, vou recolhendo a poesia delicada de nascer. Para muito além do antigo vício de ver sombras, na intimidade do meu lar, onde não há ninguém, minha alma redesenha a si mesma como flor alguns segundos antes de se abrir. Lá fora não há mais culpados: todas as primeiras pedras foram lançadas à exaustão – até restarem estas mãos vazias e cansadas, mãos sem afago, mãos envelhecendo a cada dia. E um espaço deserto que só o espírito preenche, no exercício de gerar ou enxergar o que se possa chamar de Beleza. Na incidência da luz, na palavra terna, o que se encontra não será jamais algum conforto externo, que afinal não há, sendo outono, mas a música possível de um coração que ainda sente, embalando com cuidado a sua própria pulsação desordenada. O homem sensível, o homem chorando lágrimas reais não era enfim aquele que perdia, mas o que reconstrói, pai de si mesmo, irmão e filho, o abrigo sólido de uma esperança finalmente mais madura. Virá a primavera, então. E o seu nome deixará de ser colher as flores, e passará a ser somente cultivá-las, a partir de si, para quem sabe um dia compreender as que nasceram, se nasceram, naqueles outros tantos corações desordenados. Não mais do que esse pouco. Não mais do que esse sonho, agora tão distante, mas tão possível que a maior ingenuidade é ainda pensar que seja um sonho.

domingo, 22 de março de 2009

Anotações de sábado

1. A chuva simplesmente mergulhou no dia: as opções estão bastante reduzidas. Pegar a estrada só pra ver a textura da luz refletida no asfalto.

2. Deixar fluir o pensamento, sem rever, sem represar. Adágio da Sonata K. 332 de Mozart e um pacote de caramelos. Toda a realidade se dissolve numa abstração cinzenta.

3. Excessivamente melancólico. No meu caderno, estava sublinhado duas vezes. As sensações flutuam sem recursos práticos, e eu começo a duvidar de que já tenham tido um rumo definido.

4. Chegar até você. Urgentemente, porque a chuva engrossa; não mais que segurar a tua mão e te dizer que logo passa, que não estamos tão perdidamente sós, que pelo menos eu te amo o meu amor de pássaro.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Flashback

A cidade é muito grande para estar tão quieta, Nina, para contar num dedo só os poetas trágicos que, avidamente, bebem a meia-chuva nessas ruas amarelas de paralelepípedos. Só a teu lado, Nina, só quando você cruzava silenciosa a noite que eu também sofria havia algo de alegre nesta escuridão borrada. Até chegarmos à penumbra de um apartamento baixo, de poltronas velhas, de cigarros e conhaque ao som de uma irlandesa de quem nunca perguntei o nome. E eu te amava sem palavras, sem sentidos, só um deslumbramento vago pelo branco delicado da tua pele. Nina, Nina; você falava muitas coisas que eu não entendia: romancistas tchecos, dançarinas búlgaras, filósofos sul-coreanos povoavam teu apartamento como convidados óbvios – e como eu manteria o meu orgulho sem saber quem eles eram? A tua companhia era o mistério bruto, Nina, indevassável, numa solidez incômoda de tanto "agora". E agora um mais-ou-menos dentro do meu peito; não mais que um nome bêbado de meu vazio-memória, madrugadas mortas, fantasma que escorreu do meio-fio para os meus pés que são os últimos na noite do planeta.

domingo, 8 de março de 2009

Oferendas possíveis

Nem reparou na mancha negra que deixou com o dedo no botão da campainha. Olhava em volta com certa avidez, à procura de galinhas no quintal – não fazia sentido não haver nenhuma – e observou atentamente alguns detalhes da arquitetura da casa. Demorou para perceber a porta entreaberta, o rosto claro que se espremia no espaço limitado por uma corrente, o olhar de receio que ele conhecia tão bem. O menino não teria mais que doze anos. Passou a mão pelos cabelos, pigarreou, tentou parecer confiável.

– Pode dar uma maçã – disse.

Deveria ter soado mais como uma pergunta. O menino arregalou os olhos, grunhiu alguma coisa como "espera um pouco" e tornou a fechar a porta. O ruído seguinte era o de duas voltas com a chave. O homem bêbado, sujo e maltrapilho desabou sobre o degrau da varanda e escondeu o rosto para chorar. Era mesmo um exagero imaginar que teria entrado na casa. Ficou ali por um bom tempo, sensivelmente mais embriagado com a avalanche de velhas sensações, até que a voz distante do menino veio chamar-lhe de volta ao momento presente.

– O senhor não vai poder ficar aqui – dizia ele.

Estava usando roupas de escoteiro. Olhava firme para o visitante, agora com a porta totalmente aberta, e segurava uma maçã na mão direita. O homem ficou de pé e se permitiu uma olhada rápida para o interior da casa. O menino recuou um passo; ergueu a fruta em direção a ele, como se dissesse que era tudo o que ele poderia levar. Ele pegou a maçã e imediatamente levou-a à boca.

– Mas o senhor precisa ir comer lá fora – insistiu o menino.

O homem olhava para ele quase com desinteresse. Continuou a mastigar sem se mover um passo, e quando terminou disse tranquilamente, numa voz que então soou mais limpa:

– Morei aqui tinha a sua idade. – Fez uma pausa, agitou a maçã no ar e acrescentou: – Eu que plantei essa macieira no quintal dos fundos.

O menino pareceu atordoado. Para o homem, era o bastante: a confirmação final de sua vitória. Sorriu brevemente, inclinou a cabeça em sinal de agradecimento e seguiu cambaleando em direção à rua.

Quando ele desapareceu, o escoteiro calculou que aquela boa ação deveria valer por pelo menos uns dois meses. E a perfeição foi justamente não ter dito nada. Mas o fato era que não havia macieira alguma no quintal dos fundos.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Do princípio

O que é do coração pede licença pra nascer. Debate-se em palavras, fere, é ferido, envergonha-se de ser tão frágil. Não sabe o que é beleza; não atende ao que se espera: apenas nasce num pedido de desculpas, assustado de existir, trêmulo, tímido. Nem saberia o que fazer se lhe pagassem o seu preço pelo encantamento.

O que é do coração leva o seu tempo – conquistando espaços. Não pede muita coisa além do olhar atento, da lembrança de que vive; mas não rouba, não consome, não invade. Existe, e isso é tudo o que lhe cabe. No ponto em que o deixamos, como um livro e, se for quadro, tem mesmo um tempo de secar a tinta pras camadas que ainda faltam. E permanece assim, e exala o seu perfume denso.

Até que um dia, cansado de conter a própria natureza, o que é do coração escapa de si mesmo. Rompe as grades; transborda como lava e rocha e asa pra habitar um corpo – e nele pulsa, e nele acorda, e nele move: o que é do coração não tem mais volta; o que é do coração tornou-se um homem.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Carícia

Tire os sapatos. Não quero ouvi-los sobre as tábuas da varanda. Estou fazendo parte da paisagem; estou cuidando a brincadeira das crianças. Não fale nada. Sente-se ao meu lado; ajeite com a mão as dobras do vestido. Longe, veja, o sol poente só ilumina as árvores no topo das montanhas – saboreie um mate; eu saboreio o instante de ter olhos verde-ouro. Mas em silêncio, agora. Só mais um pouco. A pele se prepara para um toque, para uma carícia. Que seja doce. O gato que se enrola em nossas pernas, o nome dele é noite.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Carta a um aprendiz

Caro amigo;

Sinceramente reconheço as dificuldades que você diz enfrentar, e peço desculpas por não ter previsto que elas poderiam surgir. E de fato, como você me expôs em sua carta, a invocação da chuva para alívio das sensações desagradáveis do espírito raramente funciona em ambientes urbanos, onde a concentração de mana é um pouco menor ou, como preferem alguns, menos pura. Não se deixe ver, meu caro, repetindo os nossos gestos de invocação em praça pública ou em filas de supermercado: dificilmente eles produziriam efeito, e as pessoas à sua volta não ajudariam muito em vê-lo como um dançarino excêntrico exibindo sua arte onde bem entende. Sugiro que você realize esta magia bem mais simples, que eu já deveria ter-lhe ensinado, e que apesar de levar mais tempo exige consideravelmente menos mana:

Sente-se no chão. Prefira os pisos de azulejo, cimento cru ou qualquer coisa assim que remotamente lembre as nossas plataformas de pedra. Feche os olhos e se conecte às sensações desagradáveis. Concentre-se bem. Perceba que elas são moldáveis, como quaisquer energias, e lentamente comece a reuni-las – use as mãos, não se limite ao pensamento – em uma esfera compacta do tamanho de uma bola de tênis. Deixe essa esfera flutuando à sua frente, na altura do rosto, e observe-a bem com os olhos da mente. Muito cuidado nessa fase: as sensações desagradáveis são esquivas, e tentarão a todo custo retornar ao seu espírito. Afaste-as repetidas vezes com a mão direita, mantendo-as na esfera compacta, e diga em voz alta quantas vezes julgar necessário: Já estamos desligados. Somente quando estiver certo de que as sensações permanecerão na esfera, levante as duas mãos em sinal de paz e comunique: Vou lhes dar forma. Pergunte qual a forma que elas gostariam de ganhar e mãos à obra.

A esta altura, seu próprio mana já estará fluindo em quantidade suficiente para qualquer materialização simples, o que invariavelmente será o caso. O mais comum é que as sensações escolham uma forma artística – florzinhas de biscuit, estátuas de jade, blogues de poemas – e acredito honestamente que você não terá a menor dificuldade em atender-lhes o pedido.

E não se espante, meu amigo, se acaso elas optarem pela forma básica da lágrima. Lembre-se sempre de que as sensações desagradáveis não são mais que uma desordem temporária no mana, que sem descanso lutará para voltar à sua forma pura.

Com votos de melhoras,
receba o meu sincero abraço.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Terra estrangeira

Não é que eu tenha medo – nada disso é novo. A sensação de caos é sempre a véspera de um Big Bang possível. Se estou assim, é porque assim eu devo estar: meio confuso. Imóvel à beira do caminho. Tenho certeza: você foi feita pra que eu me perdesse, e é só questão de tempo até que eu recomece. Depois, até aceitar o engano; depois até acertar o grito. Mas por enquanto eu só cheguei até uma placa de "perigo".

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O Signo de Touro

Era preciso que alguma coisa fosse eterna. Que estivesse lá todos os dias com o mesmo gosto, com o mesmo rosto. Arte rupestre, provérbio chinês, Acrópole, rima batida. Talvez como um eixo ao redor do qual pudesse gravitar o novo – um novo reverente. Luazinha submissa. Pra que fizesse sentido a obrigação da jornada em um mesmo corpo. Com um único nome. Pisando o que em qualquer lugar se chama pedra.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Identidade

Quando ela disse "eu gosto muito de você", não era a fama, a grana, o diploma na parede; não eram os poemas que eu mandava; não eram as canções que eu lhe fazia. Quando ela disse "eu gosto muito de você", não disse mais "doutor", ou "professor", ou "mano velho"; não disse nem meu nome; não esperou que eu respondesse nada. Falou assim, olhando nos meus olhos, mas meio sem pensar e por acaso, como se dissesse "é terça-feira", ou como se bebesse um gole d'água. Quando ela começou "eu gosto muito", e estava tão inteira e tão sincera, podia só dançar diante do espelho – que eu ia ser "você" na imagem dela.